A Discalculia do Desenvolvimento é um transtorno específico de aprendizagem caracterizado pela dificuldade persistente e inesperada da aprendizagem da matemática. Os termos persistente e inesperado nos apontam que o quadro tem uma origem neurobiológica, não podendo ser explicado por déficits intelectuais ou sensoriais, práticas pedagógicas ineficientes ou fatores socioeconômicos. Apesar de ser menos conhecida que a dislexia, o transtorno de aprendizagem da leitura, a discalculia tem uma prevalência semelhante. Um estudo do ano de 2016 revela que as taxas no Brasil em escolas públicas são de 7.8% da população em idade escolar.

As principais características que os indivíduos com este transtorno apresentam são déficits na representação e manipulação de numerosidade ou magnitudes, dificuldade de memorização dos fatos aritméticos, além de dificuldades na compreensão e aplicação de conceitos e procedimentos matemáticos. Adicionalmente, encontramos com frequência em crianças com discalculia do desenvolvimento transtornos de ansiedade, uma baixa autoeficácia para aprendizagem e problemas de comportamento.

Em relação aos aspectos cognitivos, os mecanismos subjacentes às dificuldades de aprendizagem da matemática podem se associar a domínios específicos (senso numérico) ou a domínios gerais, como memória operacional, habilidades visuoespaciais ou mesmo ao processamento fonológico, que é primariamente associada à aprendizagem da leitura e da escrita. O senso numérico pode ser definido como a habilidade de representar e manipular magnitudes não-simbólicas. Tais habilidades são inatas, aproximadas e seguem leis de processamento mental (leis psicofísicas). Embora os estudos sobre o senso numérico sejam recentes, já existe uma gama de evidências provindas de crianças com desenvolvimento típico e com discalculia que mostram a relação entre este domínio cognitivo e a aprendizagem da matemática. Já a relação dos domínios gerais com as dificuldades na matemática se associam a habilidades específicas desta disciplina. Por exemplo, déficits nas habilidades visuoespaciais impactam a aprendizagem da geometria e cálculos multidigitais, mas não nas habilidades de contagem, memorização da tabuada de multiplicação e comparação de quantidades.

A natureza persistente das dificuldades e as exigências crescentes de um mundo contemporâneo cada vez mais dependente das habilidades STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) contribuem para tornar o transtorno de aprendizagem da matemática altamente incapacitante, principalmente do ponto de vista da qualificação profissional e renda. Nesse sentido, a discalculia do desenvolvimento representa um importante problema de saúde pública, dada sua natureza crônica e o impacto negativo sobre diversos desfechos médicos e psicossociais, além de problemas psiquiátricos, baixos salários e evasão escolar.

Considerando a complexidade da discalculia do desenvolvimento, a triagem e diagnóstico corretos e precoces das crianças são extremamente importantes, permitindo um planejamento mais adequado de intervenções neuropsicológicas e educacionais mais eficazes. A utilização de evidências científicas é de crucial importância para as práxis de profissionais que atendem este público com o intuito de garantir intervenções adequadas e, em um sentido mais amplo, direcionar a alocação de recursos públicos em programas e políticas eficientes.

Materiais sobre o tema ainda são escassos no Brasil. Nesse sentido, o livro sobre Discalculia do Desenvolvimento, da Coleção Neuropsicologia na Prática Clínica, vem em auxílio não só dos neuropsicólogos, mas também para psicopedagogos, educadores, fonoaudiólogos e todos os outros que trabalham na interface com a educação. Não perca a oportunidade de aprimorar seus conhecimentos e fique atento ao lançamento para adquirir o seu volume!

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Texto escrito por:

Annelise Júlio-Costa
Psicóloga e Farmacêutica
Mestre e Doutoranda em Neurociências
Ilumina – Neurociência Aplicada a Saúde Mental

REFERÊNCIAS
Bastos, J. A., Cecato, A. M. T., Martins, M. R. I., Grecca, K. R. R., & Pierini, R. (2016). The prevalence of developmental dyscalculia in Brazilian public school system. Arquivos de neuro-psiquiatria, 74(3), 201-206.
Hasse, V. G. ; Júlio-Costa, A. ; Santos, F. H. (2015). Discalculia do Desenvolvimento. In: Flávia Heloísa dos Santos; Vivian Maria Andrade, Orlando F. A. Bueno. (Org.). Neuropsicologia Hoje. 2ed.Porto Alegre: Artmed, 2ªed., p. 160-168.
Parsons, S. & Bynner, J. (2005). Does numeracy matter more? London: NRDC.