Diversas séries de investigação policial têm buscado seduzir – e com grande sucesso – seus telespectadores usando uma dose de conhecimento científico e alusão a personagens célebres do mundo criminal. Em uma das recentes e bem-sucedidas séries policias da Netflix, Mindhunter, Holden Ford e seu companheiro Bill Tench conduzem entrevistas com assassinos em série, buscando identificar padrões de comportamento que possam ajudar em investigações futuras. Ao longo de episódios eletrizantes e cheios de menções a trabalhos clássicos na área criminal (como o livro The Mask of Sanity, de Hervey Cleckley, sobre a psicopatia), a história se desenvolve inspirada nas vidas dos policiais reais do FBI John E. Douglas e Robert Ressler. Esses agentes acabaram também conhecidos no mundo acadêmico, devido às suas publicações científicas na área forense.

Bastante populares em séries e filmes no estilo Mindhunter são personagens com características da psicopatia. Na ficção ou na vida real, indivíduos com esse funcionamento psicológico tendem a ser insensíveis, carentes de remorso, arrogantes, manipuladores, falsários, impulsivos e até mesmo agressivos. Todas essas características parecem emergir de dois fatores de risco temperamentais: déficits na capacidade de aprender a inibir comportamentos socialmente reprováveis e elevada reatividade frente à tentação.

Embora Mindhunter possua um bom embasamento técnico e proporcione uma ótima introdução à história da pesquisa sobre assassinos em série, nem sempre filmes e séries policiais são tão acurados assim. Algumas vezes, exageros, falsas associações ou mesmo omissões ocorrem. A seguir, são apresentados quatro mitos acerca da psicopatia que foram popularizados pelas telinhas entre o público leigo.

Mito 1:  “Psicopatas são, via de regra, indivíduos inteligentes.” Uma revisão da literatura publicada por O’Boyle e colegas em 2013 encontrou uma correlação quase nula entre psicopatia e inteligência. Isso significa que as pesquisas conduzidas até o momento não confirmam essa associação popularizada no imaginário dos espectadores de séries de investigação criminal. É possível que as pessoas leigas tendam a confundir habilidades sociais e assertividade com inteligência, de modo que o charme superficial da psicopatia pode ser tomado como se fosse inteligência. Alguém que sabe usar as palavras com confiança pode se passar por inteligente, mas isso não necessariamente reflete com precisão a sua capacidade de se desempenhar bem em tarefas de natureza cognitiva. Ao contrário, em amostras de criminosos, a correlação entre escores na escala Psychopathy Checklist-Revised (PCL-R) e desempenho em testes de inteligência pode até mesmo ser negativa, significando que, quanto mais psicopata, menos inteligente o indivíduo se mostra.

Mito 2:  “psicopatas são sempre assassinos em série ou, pelo menos, indivíduos muito violentos. ” Embora relativamente raros – um em cada 100 –, indivíduos com níveis altos de psicopatia são algo muito mais comum do que assassinos em série, que (felizmente!) ocorrem em uma proporção de um em cada vários milhões de pessoas. Embora a psicopatia possa ser encontrada na maioria dos assassinos em série, o contrário não é verdadeiro. Uma fração ínfima de psicopatas se envolve em crimes seriais, o que significa que a psicopatia dificilmente é a causa para esses comportamentos ou mesmo para o crime em geral. Assassinos em série tendem a ser pessoas com múltiplos problemas psicológicos, não sendo incomum encontrar uma combinação de transtornos da personalidade, história de abusos ou negligência, lesões ou acidentes de natureza cranioencefálica e diversos outros tipos de transtornos mentais (transtorno delirante ou parafilias, por exemplo). Tudo isso vai muito além da psicopatia!

Mito 3:  “O psicopata é um indivíduo ambicioso e organizado para atingir as suas metas pessoais. ” Talvez essa crença tenha sido difundida a partir dos traços obsessivos de personagens nos moldes de Patrick Bateman, do filme “Psicopata Americano”, inspirado no livro de Bret Easton Ellis. Patrick Bateman, é narcisista, materialista e obcecado por limpeza, e fica facilmente enraivecido se as coisas não são feitas exatamente como ele quer. Todavia, o que uma revisão sistemática da literatura científica mostrou é que a psicopatia apresenta uma relação negativa com o fator de personalidade Conscienciosidade. Em outras palavras, quanto mais psicopata um indivíduo é, mais prejudicadas são as suas capacidades de organização, planejamento e persistência. Ou seja, muito pelo contrário, psicopatas tendem a ser impulsivos e com dificuldades de planejar. O fato é que muitos personagens famosos do cinema são criminosos do “colarinho branco”, ou seja, indivíduos com alto nível de escolaridade e status social, que cometem crimes usando estratégias e subterfúgios que diminuem as chances de serem presos. Esses criminosos, entretanto, não são a regra (são a exceção), pois possuem um funcionamento neurobiológico similar ao do cidadão comum e diferente da maioria dos criminosos psicopatas.

Mito 4:  O quarto mito é, na verdade, uma confusão feita no cinema. Muitas vezes, psicopatas são chamados de “psicóticos”. Apenas para ilustrar, o livro de Bret Easton Ellis mencionado acima se chama American Psycho (“Psicótico americano”), diferentemente do título de sua adaptação ao cinema. Indivíduos com transtornos de natureza psicótica sofrem de delírios (ex., pensar que é Napoleão Bonaparte), alucinações (ex., ouvir vozes) e desordem de pensamento (ex., fala estereotipada ou desconexa). Sinais ou sintomas de psicose não são, de forma alguma, critérios da psicopatia. Ao contrário, evidências sugerem que a psicopatia pode atuar como um fator protetivo contra o desenvolvimento dos prejuízos executivos típicos dos quadros psicóticos. Ou seja, em contraste com um paciente esquizofrênico em surto psicótico, um psicopata não perdeu seu contato com a realidade, e sabe perfeitamente a diferença entre comportamentos lícitos e ilícitos. Nada justifica, portanto, chamar um psicopata de “psicótico”.

Muito do que vemos na telinha tem um fundo de verdade. Algumas vezes, trata-se de uma amplificação de um aspecto periférico de uma síndrome psicológica, ou então uma generalização anedótica de casos reais que não representam a tendência ou “regra”. Assim, alguém que deseja adquirir um conhecimento científico sobre a área criminal deve entrar em contato com a literatura científica correspondente, e deixar os seriados para os momentos de lazer. Mesmo assim, convenhamos que as séries e os filmes possuem a licença poética de estarem enganados algumas vezes. E, nem por isso, serão menos divertidos!

 

Para saber mais:

Hauck Filho, N., Teixeira, M. A. P., & Dias, A. C. G. (2012). Psicopatia: uma perspectiva dimensional e não-criminosa do construto. Avances en Psicología Latinoamericana, 30(2), 317–327.

Lykken, D. T. (1995). The Antisocial Personalities (1st ed.). Hillsdale, New Jersey: Lawrence Earlbaum Associates, Inc.

Patrick, C. J. (2006). Handbook of Psychopathy. New York: The Guilford Press.

 

Sobre o autor:

Nelson Hauck Filho é professor do programa de pós-graduação em psicologia da Universidade São Francisco, mestre e doutor em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e desenvolve estudos na área de avaliação de traços de psicopatia.

Editor Lucas de Francisco Carvalho, professor do programa de pós-graduação stricto sensu em psicologia da Universidade São Francisco.