A Síndrome de Down é uma síndrome genética que acomete 1 a cada 700 bebês1 e é causada pela trissomia do cromossomo 21 – ou seja, existe uma cópia extra, parcial ou total, do cromossomo 212. O aumento de expressão gênica devido a esse cromossomo extra leva a prejuízos no desenvolvimento do cérebro que são associados a déficits cognitivos e a alterações comportamentais posteriores, bem como acarreta as modificações físicas características da síndrome. Além disso, problemas de saúde, como malformação cardíaca, leucemia na infância e Demência de Alzheimer precoce, são mais frequentes nos portadores da síndrome.3 Uma vez que a Síndrome de Down requer apoio de diversos profissionais da saúde e requer atenção diferenciada em relação à aprendizagem, é importante se conhecer o perfil dos portadores da síndrome para saber quais estratégias utilizar em termos de intervenções comportamentais e no contexto educacional.

A deficiência intelectual (DI) é uma das características mais comuns observadas em portadores da Síndrome de Down (SD). A severidade da deficiência intelectual nessa população pode variar entre limítrofe e profunda, mas o perfil mais comum encontrado é de DI moderada a severa. Indivíduos com SD costumam apresentar crescimento cognitivo nos períodos da infância, adolescência e início da vida adulta, seguido de perda cognitiva a partir da meia idade associada comumente a processo demencial4.

Além da deficiência intelectual, é comum que crianças com SD apresentem como perfil cognitivo um melhor desempenho nas habilidades visuoespacias em relação às habilidades de linguagem4,5. Embora os marcos iniciais de desenvolvimento da linguagem não se apresentem necessariamente atrasados, as dificuldades comunicacionais se tornam mais evidentes a medida que o ambiente demanda mais tal habilidade. Neste sentido, enquanto o desenvolvimento de habilidades não-verbais parece melhorar ao longo da infância até a idade adulta, as dificuldades na linguagem podem se tornar mais acentuadas em relação aos pares ao longo do desenvolvimento4.

Os portadores de SD apresentam como maiores facilidades cognitivas as habilidades visioespaciais e de motivação para a interação social. É importante destacar que, ainda que as habilidades visioespaciais sejam pontos fortes em relação aos prejuízos de linguagem, o nível de tais capacidades não se encontra na faixa esperada para crianças típicas. Em relação às dificuldades, estas dizem respeito à linguagem, incluindo aspectos como processamento fonológico, sintaxe e memória operacional verbal. Além disso, os portadores de SD podem apresentar prejuízo em diferentes habilidades de funções executivas, como atenção, controle inibitório e planejamento.3,4

Como perfil comportamental, indivíduos que apresentam SD costumam apresentar grande interesse social, além de serem comumente descritos como carismáticos e animados. Apesar de o desenvolvimento social ser similar ao de crianças típicas, há algumas diferenças em habilidades como reconhecimento de emoções e atenção compartilhada. Além disso, crianças com SD apresentam menos transtornos psicopatológicos em relação a outras crianças com DI, mas podem apresentar maior frequência de comportamentos extrenalizantes.4

Em relação à aprendizagem, nota-se que crianças portadoras de SD apresentam dificuldades similares às crianças com DI em relação à capacidade de manter a informação em mente em curto e longo-prazo. Além disso, devido ao perfil de déficits cognitivos e dificuldade no processamento linguístico, a aquisição das habilidades acadêmicas básicas – leitura, escrita e matemática – também é afetada. Os portadores de SD tendem a se beneficiar mais do uso de ferramentas concretas, bem como da aprendizagem observacional e do uso de recompensas no processo de ensino. Uma vez que apresentam grande interesse por interações sociais, estratégias de ensino utilizando aspectos de socialização podem ser úteis.4

De maneira geral, nota-se que o perfil cognitivo dos portadores de SD é composto por forças e fraquezas que devem ser levados em conta ao se considerar as intervenções selecionadas para tratamento e inclusão no ambiente escolar e de trabalho. O investimento no desenvolvimento de habilidades de linguagem desde a primeira infância pode ser interessante, de modo a diminuir as dificuldades nessa área. Intervenções no período pré-escolar, com enfoque no ensino de habilidades básicas para aprendizagem da leitura e da matemática também parecem importantes para garantir o sucesso acadêmico.6 Além disso, estratégias que sejam focadas em ensino através de atividades concretas, que envolvam o uso de recompensas e aprendizagem social devem ser úteis para o ensino de novas habilidades e desenvolvimento de autonomia para essas crianças.

 

Referências

  1. Parker, S. E., Mai, C. T., Canfield, M. A., Rickard, R., Wang, Y., Meyer, R. E., … & Correa, A. (2010). Updated national birth prevalence estimates for selected birth defects in the United States, 2004–2006. Birth Defects Research Part A: Clinical and Molecular Teratology, 88(12), 1008-1016.
  2. Constestabile A, Benefenat F, Gasparini L. 2010. Communication breaks-Down: From neurodevelopmental defects to cognitive disabilities in Down syndrome. Prog Neurobiol. 91:1–22.
  3. Chapman, R. S., & Hesketh, L. J. (2000). Behavioral phenotype of individuals with Down syndrome. Developmental Disabilities Research Reviews6(2), 84-95.
  4. Grieco, J., Pulsifer, M., Seligsohn, K., Skotko, B., & Schwartz, A. (2015, June). Down syndrome: Cognitive and behavioral functioning across the lifespan. In American Journal of Medical Genetics Part C: Seminars in Medical Genetics(Vol. 169, No. 2, pp. 135-149).
  5. Chapman, R. S., & Hesketh, L. J. (2000). Behavioral phenotype of individuals with Down syndrome. Developmental Disabilities Research Reviews6(2), 84-95.
  6. Lemons, C. J., Powell, S. R., King, S. A., & Davidson, K. A. (2015). Mathematics interventions for children and adolescents with Down syndrome: a research synthesis. Journal of Intellectual Disability Research, 59(8), 767-783.

 

 

Texto escrito por:

Isabela Sallum

Psicóloga e Mestre em Medicina Molecular pela UFMG

Membro do Instituto Lumina Neurociências Aplicadas à Saúde Mental