A terceira idade é um período frequentemente acompanhado por maiores cuidados com a saúde. Nesta época da vida, há uma grande preocupação com possíveis problemas de saúde físicos, como complicações cardiovasculares e renais, prejuízos nas articulações e ossos, problemas respiratórios, dentre outros. Ao considerarmos a saúde mental de idosos, a preocupação maior tende a ser quanto às possibilidades de demências vascular ou neurodegenerativa. Apesar desse cuidado, muitas vezes os sintomas psicopatológicos e a caracterização de doenças psiquiátricas, como a depressão maior, são menos investigados e tratados nesta população.

Essa fase da vida é vista com frequência como uma fase de maturidade emocional e bem-estar psicológico. No entanto, existem diversos fatores de risco para o surgimento de sintomas depressivos. Fatores como a diminuição de atividades laborais e do papel no ambiente familiar e comunitário, isolamento e menor frequência de contato interpessoal, bem como a presença de doenças clínicas ajudam a explicar o surgimento dos sintomas depressivos. Fatores genéticos parecem ser mais relevantes para idosos que apresentaram sintomas depressivos antes da terceira idade do que para idosos com depressão tardia.2

A depressão maior acomete cerca de 1 a 5% de idosos (pessoas com 65 anos ou mais), segundo estudos de epidemiológicos de prevalência (Hasin et al., 2005). Tal prevalência é inferior àquela de adultos mais jovens, mas também é importante considerar a prevalência de sintomas depressivos subsindrômicos nesta população. Segundo um estudo de metanálise que avaliou pesquisas de prevalência de sintomas depressivos em idosos brasileiros, 7% dos idosos apresentam sintomatologia característica de depressão maior, 3% apresentam sintomas de distimia e 26% (pouco mais de um quarto da população) apresentaram sintomas depressivos clinicamente significativos(SDCS)3.

A consideração quanto aos sintomas subsindrômicos é importante porque é possível que a frequência de depressão maior seja subestimada nesta população devido a fatores confundidores e ao fato de que os sintomas depressivos nessa faixa etária são mais heterogêneos do que em adultos mais jovens. Tipicamente, a depressão tem como sintomatologia possível prejuízo no afeto, cognição ou somático. Em idosos, a apresentação de sintomas somáticos – como cansaço, dor crônica, mudanças no apetite e sono – são mais comuns do que sintomas psíquicos – como tristeza e sentimento de culpa3. Os manuais diagnósticos tipicamente priorizam os sintomas psíquicos para o diagnóstico da depressão, o que dificulta ainda mais o diagnóstico geriátrico.4 Além dos sintomas mais cognitivos e somáticos, sintomas psicóticos condizentes com o humor também podem ser mais frequentes na população senil5.

Idosos com depressão podem apresentar queixas cognitivas, e o déficit mais comum relatado é na memória episódica, que pode ser observada tanto em termos de queixa subjetiva quanto na avaliação neuropsicológica. Este prejuízo se difere da Demência de Alzheimer (DA) uma vez que, apesar de o paciente com depressão apresentar dificuldade na evocação tardia, a capacidade de reconhecimento tende a estar preservada.4 Para além do prejuízo na memória episódica, é possível que o paciente apresente prejuízos nas funções executivas e na velocidade de processamento. Os prejuízos cognitivos são relacionados a maior prejuízo funcional e pior prognóstico. É importante notar ainda que tanto a depressão precoce quanto a depressão tardia estão associadas com maior risco de o idoso desenvolver quadros demênciais, em especial a DA e demência vascular.4,5

O envelhecimento populacional torna a população geriátrica um importante alvo para os cuidados em saúde mental. Considerando os prejuízos funcionais e os prejuízos de saúde geral que a depressão pode gerar em idosos, é necessário que se busque a identificação e tratamento para este quadro com rapidez. Atualmente, o tratamento farmacológico tem sido bastante utilizado, mas a associação com psicoterapia tem se mostrado eficiente para prevenção de recaídas e para gerar melhores resultados.5 Para conhecer mais sobre esse tema e saber sobre aspectos de avaliação e intervenção em idosos, não deixe de conferir o livro Psicogeriatria na prática clínica (clique aqui para ser direcionado).

REFERÊNCIAS

  1. Hasin DS, Goodwin RD, Stinson FS, Grant BF. Epidemiology of major depressive disorder: Results from the National Epidemiologic Survey on Alcoholism and Related Conditions. Gen.Psychiatr. 2005;62:1097–106.
  2. Fiske, A., Wetherell, J. L., & Gatz, M. (2009). Depression in older adults. Annual review of clinical psychology, 5, 363-389.
  3. Barcelos-Ferreira, R., Izbicki, R., Steffens, D. C., & Bottino, C. M. (2010). Depressive morbidity and gender in community-dwelling Brazilian elderly: systematic review and meta-analysis. International Psychogeriatrics, 22(5), 712-726.
  4. Diniz, B.S., Teixeira, A.L. (2014). Neuropsicologia da depressão e dos transtornos de ansiedade do idoso. IN:Caixeta, L., & Teixeira, A. L. (2014). Neuropsicologia geriátrica. Artmed Editora.
  5. Small, G. W. (2009). Differential diagnoses and assessment of depression in elderly patients. J Clin Psychiatry, 70(12), e47.

 

Texto escrito por:

Isabela Sallum

Psicóloga e Mestre em Medicina Molecular pela UFMG

Membro do Instituto Lumina Neurociências Aplicadas à Saúde Mental