Ao mencionarmos a Doença de Parkinson, com frequência a imagem que nos vem à cabeça diz respeito aos tremores típicos da doença. Apesar dessa característica ser a mais visível, os prejuízos cognitivos associados à demência muitas vezes não são tão conhecidos ao público.

A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva e seu diagnóstico se baseia, como característica principal, na presença de parkinsonismo, quadro que pode ser definido por uma das quatro características de distúrbio motor: rigidez, instabilidade postural, bradicinesia e tremor de repouso. Além dessas características, a assimetria motora inicial, ou seja, o fato de os sintomas motores aparecerem inicialmente predominantemente de um lado do corpo, também pode ajudar na definição do diagnóstico, bem como a resposta positiva inicial ao levodopa1.

Segundo um estudo de metanálise considerando pesquisas com participantes com idade variável (de 40 a mais de 80 anos), a doença de Parkinson acomete, no geral, cerca de 0,3% dessa população (315 pessoas em 100.000).2 No entanto, a prevalência da doença tem um importante aumento com a idade, acometendo cerca de 1% dos idosos a partir de 70 anos, e com frequência de quase 2% em idosos acima de 8 anos.2 Por volta de 30% daqueles acometidos pela doença de Parkinson apresentam demência, e déficits cognitivos podem ser verificados mesmo em pacientes não demenciados.3 A partir da caracterização neuropsicológica dos portadores de doença de Alzheimer, é possível a identificação de déficits cognitivos e diagnóstico mais preciso de demência.

A demência na doença de Parkinson (DDP) é com frequência considerada uma demência subcortical e os acometimentos cognitivos do Parkinson se enquadram àqueles encontrados na sintomatologia de prejuízos subcorticais. Além dos prejuízos motores, os domínios cognitivos mais afetados na DDP são a atenção e as funções executivas.4 Os pacientes podem apresentar dificuldades na regulação atencional, tendendo a se dispersar mais, a ter pouca resistência à interferência e apresentar dificuldade em estabelecer o foco atencional. Além disso, podem ter déficits na memória operacional, planejamento e tomada de decisão. Os déficits na velocidade de processamento também podem ser verificados, e prejuízos de memória podem ocorrer, embora déficits mnemônicos sejam distintos daqueles observados em demências corticais. Pacientes com DDP também podem apresentar déficits visioespaciais e visuoconstrutivos importantes, bem como alterações na praxia que vão além do parkinsonismo. Já a linguagem geralmente está intacta, apesar de possível prejuízo na fluência verbal.4,5

Os tratamentos para a doença de Parkinson são predominantemente farmacológicos, e costumam envolver medicações associadas com as vias dopaminérgicas – centrais para a doença e para os sintomas motores. O tratamento para os problemas cognitivos decorrentes da doença, no entanto, costuma feito com medicações colinérgicos. Além do tratamento medicamentoso, a reabilitação cognitiva e neuropsicológica pode auxiliar na melhora dos sintomas cognitivos e da funcionalidade.5

A doença de Parkinson por si só acarreta prejuízos funcionais importantes em seus portadores. Acompanhada por déficits cognitivos ou demência, pode ser ainda mais incapacitante. A neuropsicologia é capaz de auxiliar os portadores de DDP através da avaliação e identificação de dificuldades e potencialidades do paciente, além de poder servir de apoio no tratamento dos déficits funcionais acarretados pela doença.

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Referências

  1. Litvan I, Bhatia KP, Burn DJ, et al. Movement Disorders Society Scientific Issues Committee report: SIC Task Force appraisal of clinical diagnostic criteria for parkinsonian disorders. Mov Disord, 2003; 18: 467–86.
  2. Pringsheim, T., Jette, N., Frolkis, A., & Steeves, T. D. (2014). The prevalence of Parkinson’s disease: A systematic review and meta‐analysis. Movement disorders29(13), 1583-1590.
  3. Caixeta, L., & Vieira, R. T. (2008). Demência na doença de Parkinson Dementia in Parkinson’s disease. Rev Bras Psiquiatr, 30(4), 375-83.
  4. Caixeta, L., Pinto, L.H., Soares, V.L.D, Cândida, D.S.(2014). Neuropsicologia das doenças neurodegenerativas mais comuns. IN:Caixeta, L., & Teixeira, A. L. (2014). Neuropsicologia geriátrica. Artmed Editora.
  5. Kehagia, A. A., Barker, R. A., & Robbins, T. W. (2010). Neuropsychological and clinical heterogeneity of cognitive impairment and dementia in patients with Parkinson’s disease. The Lancet Neurology9(12), 1200-1213.

 

Texto escrito por:

Isabela Sallum

Psicóloga e Mestre em Medicina Molecular pela UFMG

Membro do Instituto Lumina Neurociências Aplicadas à Saúde Mental