A inteligência é o construto mais estudado e comprovado da psicologia. De maneira geral, os estudos científicos sobre inteligência descrevem o construto como uma capacidade mental geral associada à capacidade de raciocínio, abstração, resolução de problemas, compreensão de conceitos complexos, e capacidade de aprender com a experiência e de forma rápida (Gottfredson, 1997). A inteligência já foi associada com fatores diversos, como desempenho acadêmico, nível de sucesso profissional, qualidade de vida e até mesmo com a escolha de parceiros amorosos (Flores-Mendoza & Colom, 2009). A observação dessas associações já aponta para a importância do construto como um fator de predição comportamental.

Existem diversos modelos que buscam definir o que é inteligência. Dentro da psicologia, encontramos teorias que propõem modelos culturais, evolutivos, computacionais, globais e fatoriais. Os modelos fatoriais e globais são os mais abordados atualmente. De maneira geral, modelos globais estabelecem a existência de múltiplos tipos de inteligência que não necessariamente se relacionam entre si, e os modelos fatoriais se baseiam na psicometria e geralmente estabelecem a inteligência como um construto único, possuindo um fator geral, que pode englobar outros subcomponentes distintos, mas que ainda assim se relacionam (Flores-Mendoza & Colom, 2009). Embora as teorias globais, como a teoria das inteligências múltiplas de Gardner (1993), tenham se tornado populares recentemente, as teorias fatoriais possuem maior comprovação científica.

Spearman (1924) propôs um dos primeiros e mais influentes modelos de inteligência, baseando-se na análise fatorial do construto. Segundo o modelo, existe um fator geral de inteligência (conhecido como fator g), que é por sua vez composto por dois subfatores: a inteligência edutiva e a inteligência reprodutiva. A inteligência edutiva envolveria a capacidade de abstrair novas compreensões a partir de situações ou eventos apresentados. Tem a ver com a habilidade de gerar novos significados a partir dos estímulos externos. A inteligência reprodutiva, por sua vez, é a capacidade de reutilizar informações já aprendidas – reproduzir um conteúdo adquirido previamente.

Os conceitos de inteligência edutiva e reprodutiva se assemelham aos fatores de inteligência fluída e cristalizada propostas posteriormente por Cattell (1963). A inteligência fluida, assim como a inteligência edutiva, se relacionaria com a capacidade de adaptação a problemas ou situações novos, sem necessidade de ter havido experiência anterior com a situação. A inteligência cristalizada, assim como a inteligência reprodutiva, inclui habilidades que já foram estabelecidas com o aprendizado.

A inteligência edutiva é, portanto, extremamente necessária para a nossa capacidade de adaptação e resolução de problemas novos com os quais ainda não temos experiência. Pode parecer um conceito abstrato, mas utilizamos esta capacidade a todo momento. Imagine, por exemplo, uma prova escolar de matemática. Por mais que a criança use os conceitos aprendidos em sala de aula (inteligência reprodutiva), os problemas apresentados dificilmente serão exatamente os mesmos que ela já fez, então ela deverá ser capaz de usar também a inteligência edutiva para aplicar seus conhecimentos, raciocinar e resolver o novo exercício. Da mesma maneira, ao escrever um laudo de psicodiagnóstico, por exemplo, é necessária a capacidade de juntar os seus conhecimentos de psicologia com o perfil do paciente (que nunca será igual a outro paciente) e chegar a conclusões novas a partir dessa análise.

Considerando a imprevisibilidade de situações em que estamos dispostos diariamente, a capacidade de inteligência edutiva é essencial para o funcionamento diário. Em contexto de avaliação, a inteligência edutiva é aquela que mais se aproxima do construto de inteligência geral, e é, portanto, imperativa para a caracterização do perfil psicológico. Uma vez que a inteligência constitui a capacidade cognitiva global, sua avaliação é necessária para verificar se as dificuldades cognitivas ou comportamentais apresentadas devam a rebaixamento intelectual ou não, ou mesmo para analisar o prognóstico do caso, uma vez que a funcionalidade está intimamente relacionada com a inteligência edutiva.

A inteligência edutiva pode ser medida com uso de instrumentos de avaliação da inteligência geral, como o Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (CPM-Raven), direcionado a crianças de 5 a 11 anos. O instrumento possui as vantagens de ser fácil de aplicar e corrigir, ter uma duração de aplicação simples e permitir assim uma mensuração eficaz e rápida da inteligência.

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REFERÊNCIAS

Cattell, R. B. (1963). Theory of fluid and crystallized intelligence: A critical experiment. Journal of educational psychology, 54(1), 1.

Flores-Mendoza, C., & Colom, R. (2009). Introdução à psicologia das diferenças individuais. Artmed Editora.

Gardner, H. (1993). Multiple intelligences (Vol. 5, No. 7). New York: Basic Books.

Gottfredson, Linda S. (1997). Mainstream Science on Intelligence (editorial). Intelligence, 24: 13–23.

Spearman, C. (1924). The nature of” intelligence” and the principles of cognition.

 

Texto escrito por:

 

Isabela Sallum

Integrante do Instituto Lumina. Psicóloga e mestre em Medicina Molecular pela UFMG.