Você já parou para pensar por que você faz certas escolhas em vez de outras? Por que algumas pessoas optam por opções de vida mais saudáveis e outras não, por que decidimos nos comportar de maneira mais ou menos imediatista, e por que isso varia de acordo com a idade?

A tomada de decisão é talvez um dos construtos mais complexos da neuropsicologia e, de maneira simplificada, diz respeito ao processo de escolha de uma opção dentre várias outras. Em termos neuropsicológicos, podemos considerar que a tomada de decisão se refere a um processo cognitivo de escolha que envolve análises  emocionais e racionais de nossas experiências passadas, considerando riscos e suas implicações para o presente e para o futuro (Bechara, Damasio, Tranel, & Damasio, 1997). Neste sentido, ao tomarmos uma decisão, analisamos distintos aspectos de cada escolha em relação aos possíveis resultados finais, sendo tais aspectos a valência dos resultados (ganho ou perda), sua magnitude (grande ou pequena), o tempo para ter o resultado esperado (postergado ou imediato) e a probabilidade de o resultado acontecer (alta ou baixa; Sonuga-Barke et al., 2016). O conhecimento sobre os processos que nos fazem tomar decisões é de extrema importância para compreendermos os mais variados aspectos do comportamento, desde comportamentos típicos e saudáveis àqueles comportamentos psicopatológicos.

Por muito tempo, as teorias clássicas de tomada de decisão – muitas vezes associadas às ciências econômicas – admitiam que todos os processos de escolha seriam conscientes, deliberados e tenderiam a buscar o máximo de utilidade possível (isto é, o máximo de satisfação e resultado possíveis), levando em conta o pressuposto de que nossas escolhas são feitas de modo racional. No entanto, tais premissas foram questionadas devido à emergência de experimentos psicológicos e neurocientíficos abordando o assunto. Atualmente, temos a noção de que tomada de decisão inclui componentes motivacionais e ecológicos e demanda tanto conhecimentos explícitos quanto implícitos. Neste sentido, é possível que saibamos explicitamente quais os riscos e benefícios ao fazermos distintas escolhas, mas existe ainda um aspecto implícito associado às nossas escolhas. Damásio (1996) propôs a hipótese dos marcadores somáticos para explicar a função implícita das emoções sobre as nossas escolhas. Segundo essa teoria, quando estamos em uma situação de escolha sob risco ou ambiguidade, nosso corpo gera sinais (“marcadores somáticos”) que são processados pela circuitaria emocional do cérebro, em especial o córtex pré-frontal ventromedial, para ajudar na regulação da tomada de decisão.

Os estudos conduzidos por António Damásio e Antoine Bechara foram de extrema importância para o conhecimento atual de que as emoções e fatores implícitos da cognição ajudam a definir as nossas escolhas para além de uma análise puramente racional. De fato, basta observarmos nosso próprio comportamento para comprovarmos isso: quantas vezes comemos alimentos não saudáveis, mesmo sabendo que eles fazem mal? Quantos de nós deixa de fazer exercícios, mesmo conhecendo seus benefícios?

O modelo de marcadores somáticos é apenas um de várias propostas sobre como abordar a tomada de decisão. Aqui, abordamos somente um aspecto desse complexo construto. Para compreender mais sobre o assunto, fique atento ao livro Julgamento e Tomada de Decisão. Este novo lançamento da Pearson traz 14 capítulos discutindo os conceitos básicos sobre esses dois construtos, bem como se aprofunda em explicar a aplicação desses conceitos em diferentes áreas, como direito, economia, esporte e medicina, e sua associação com distintos transtornos e problemas de saúde, como os transtornos de humor, neurológicos, psicóticos, dependências químicas e obesidade. Não deixe de conferir!

 

REFERÊNCIAS

Bechara, A., Damasio, H., Tranel, D., & Damasio, A. R. (1997). Deciding advantageously before knowing the advantageous strategy. Science,275(5304), 1293-1295.

Damasio, A. R., Everitt, B. J., & Bishop, D. (1996). The somatic marker hypothesis and the possible functions of the prefrontal cortex [and discussion]. Philosophical Transactions of the Royal Society of London B: Biological Sciences, 351(1346), 1413-1420.

 

Sonuga-Barke, E. J., Cortese, S., Fairchild, G., & Stringaris, A. (2016). Annual Research Review: Transdiagnostic neuroscience of child and adolescent mental disorders–differentiating decision making in attention-deficit/hyperactivity disorder, conduct disorder, depression, and anxiety. J Child Psychol Psychiatry, 57(3), 321-349. doi:10.1111/jcpp.12496

 

Texto escrito por:

Isabela Sallum

Psicóloga e mestre em Medicina Molecular

Integrante do Instituto Lumina Neurociências Aplicadas à Saúde Mental