Saiba como manchas de tinta têm sido usadas para avaliar a personalidade das pessoas.

Quem nunca fez uma atividade artística que consistia em jogar tinta em um papel de cor neutra (geralmente branco), dobrar o papel ao meio e reabrir na sequência? Este tipo de atividade artística, frequente na infância em contexto escolar, é comumente conhecida, reconhecida e lembrada pelas pessoas ao redor do mundo. Fora de contexto educativo ou lúdico, ela tem sido atrelada a diversas produções e aplicações. Historicamente, Da Vinci e Bocelli fizeram uso de manchas de tinta, interpretativamente e artisticamente, no início do século XV. Seguido a isso, um médico e escritor alemão do século XIX, Justinus Kerner, fez uso dessa técnica com o objetivo de dar sentido poético a manchas de tintas simétricas. Tendo uma produção que mesclava manchas de tinta e poemas por elas inspirados, o Kleksographien (o termo alemão kleks significa manchas), Kerner concebeu a obra em decorrência das gotas de tinta que caíam repetidamente sobre o papel enquanto desempenhava seu papel de escritor (caneta-tinteiro e penas eram usadas na época), o que, quando dobradas, formavam figuras simétricas com a possibilidade de diversas identificações. Concomitantemente, na Europa do século XIX e XX, um jogo chamado Klexography era usado por crianças e adultos com a brincadeira de, criativamente, nomear o que cada participante conseguia ver nas tais manchas de tinta.

Enquanto o crédito do estabelecimento das manchas de tinta como técnica psicológica pertence claramente ao psiquiatra suíço Hermann Rorschach (1884-1922) – como consequência de sua publicação em 1921, o Psicodiagnóstico – iniciativas anteriores foram registradas na história da psicologia. A Binet e Henri, em 1895, parece ter sido atribuído o pioneirismo no uso de manchas de tinta na avaliação psicológica, atrelado a seus trabalhos sobre inteligência. Além desses autores, menciona-se Sharp, Kirkpatrick, Whipple, Rybakow, entre outros, que realizaram aplicações e experimentos psicológicos com manchas de tintas. Apesar das diversas iniciativas, o teste de Rorschach se sobressai pelo contínuo investimento recebido, consistindo atualmente em um dos testes psicológicos mais cientificamente respaldados para a avaliação da personalidade das pessoas. Mas, como isso é possível? As manchas de tinta consistem em estímulos com diversas possibilidades visuais concorrentes que impõem a quem as analisa a necessidade de recorrer a recursos pessoais e significados individuais para então dar sentido às essas imagens complexas. Ao associar os estímulos à tarefa de dizer com que as manchas se parecem, o respondente passa a verbalizar respostas e se comportar diante da testagem padronizada, o que permite observações e anotações sobre o seu desempenho. Esta atuação em resposta à tarefa e estímulos do teste de Rorschach tem sido chamada de personalidade em ação. O registro e análise, de forma padronizada e sistemática, das respostas e comportamentos durante a testagem, i.e., da personalidade em ação, é a fonte dos dados interpretativos do teste de Rorschach.

Ao transitar entre cada uma das imagens, analisando suas propriedades e dizendo com o que elas se parecem, o respondente vai expondo atributos de seu processamento de informação, enquanto prioriza alguns aspectos, ignora outros, recorta a figura, combina detalhes e/ou destaca algumas qualidades da mancha na escolha de sua resposta.

Ao mesmo tempo, enquanto explica as respostas atribuindo sentidos às imagens, o respondente se comporta e justapõe sua percepção às imagens revelando características centrais de seu funcionamento. Durante todo o processo de elaboração de respostas ao teste de Rorschach, aspectos psicológicos subjacentes estão ativamente funcionantes direcionando e influenciando grande parte das decisões e reações do respondente durante a atividade. O resultado desse desempenho gera uma amostra de sua personalidade em ação, com rica possibilidade interpretativa. Assim, a associação entre esses aspectos psicológicos subjacentes e as manifestações específicas durante a elaboração de respostas foi alvo de investigação, configurando a base de evidências sobre a pertinência do teste de Rorschach na avaliação da personalidade. Por sua vez, as evidências dessa associação, entre características das respostas/comportamento e os aspectos psicológicos latentes, permitem a interpretação psicológica a partir do teste de Rorschach.

De forma geral e sumarizada, fazendo uso da amostra comportamental da personalidade em ação colhida durante a testagem, o examinador poderá conhecer alguns recursos psicológicos do respondente relacionados à sua capacidade produtiva e motivacional; à sua construção e curso do pensamento, o que inclui dados sobre a sua competência na compreensão e acurácia no julgamento; à representação que faz de si e de outros, o que explicita particularidades de suas relações pessoal e interpessoal; além de revelar a vivência de perturbações ou emoções negativas que podem estar permeando o funcionamento e adaptação da pessoa avaliada. Essa amostra comportamental é então corrigida de forma padronizada e confrontada com expectativas normativas, consentindo interpretações individualizadas sobre a personalidade da pessoa avaliada. O conjunto interpretativo do Rorschach permite identificar aspectos e recursos psicológicos saudáveis e adaptativos, e características e manifestações patológicas que possam estar prejudicando o ajuste e desenvolvimento da pessoa avaliada no contexto em que está inserida.  Para além, os dados extraídos de uma testagem com o Rorschach podem incluir conteúdos úteis para uma avaliação idiográfica, que poderão adicionalmente ser utilizados pelo avaliador em prol do avaliando.

Hoje, em meados do século XXI, seguramente pode-se afirmar o encontro entre manchas de tinta e personalidade não é só possível, como é também cientificamente atestado e aplicável à avaliação psicológica. A riqueza interpretativa do teste das manchas de tinta é destacável no contexto da testagem e experimentação psicológica, e suas evidências têm convencido e intrigado até os mais efusivos críticos do teste de Rorschach. Sua aplicabilidade tem ganhado notoriedade e espaço em diversos contextos de avaliação psicológica, enquanto a fama do teste de Rorschach traspassa o contexto científico e tem penetrado a cultura popular mundial (exemplo disso, cita-se a série e filme Watchmen) tornando-o um dos instrumentos mais conhecidos mundialmente.

               

Para saber mais:

Meyer, G. J. (2017). What Rorschach performance can add to assessing and understanding personality. International Journal of Personality Psychology, 3, 36-49.

https://ijpp.rug.nl/article/download/29881/27195

 

Mihura, J. L., Meyer, G. J., Dumitrascu, N., & Bombel, G. (2013). The validity of individual Rorschach variables: Systematic reviews and meta-analyses of the Comprehensive System. Psychological Bulletin, 139, 548-605.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22925137

 

Searls, D. (2017). The Inkblots: Hermann Rorschach, His Iconic Test, and the Power of Seeing. London: Simon & Schuster.

Curiosidade:

Hubbard, K. & Hegarty, P. (2017). Rorschach tests and Rorschach vigilantes: Queering the history of psychology in Watchmen. History of the Human Sciences, 30(4), 75 – 9. http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0952695117722719

Sobre o autor:

Giselle Pianowski é pesquisadora com foco de pesquisas direcionado à avaliação da personalidade, destacadamente com o Teste das Manchas de Tinta de Rorschach e escalas de autorrelato. É mestre e doutora em psicologia com ênfase em avaliação psicológica pela Universidade São Francisco (USF), atualmente associada ao Laboratório de Avaliação Psicológica em Saúde Mental (LAPSaM) da USF.

Editor Lucas de Francisco Carvalho, professor do programa de pós-graduação stricto sensu em psicologia da Universidade São Francisco.