Isabela Sallum

Psicóloga e Mestre em Medicina Molecular pela Universidade Federal de Minas Gerais

O período pré-escolar, de 3 a 5 anos, é um dos mais valiosos para o desenvolvimento infantil. Nesta fase, as crianças adquirem importantes habilidades sociais e apresentam melhora em diferentes habilidades cognitivas e comportamentais.

 

Por muito tempo, a escola infantil era vista como local apenas de cuidado com a criança. Atualmente, sabemos da importância do período pré-escolar como momento para aquisição de habilidades necessárias para a aprendizagem acadêmica posterior.

Para compreendermos a importância do período pré-escolar, devemos entender quais seriam os fatores encontrados na pré-escola que predizem o desempenho acadêmico nos anos escolares. Hanover Research (2016) divide 2 grupos gerais de fatores: Habilidades Acadêmicas Iniciais e Habilidades Não-Acadêmicas.

 

Habilidades acadêmicas iniciais

As habilidades acadêmicas iniciais estão entre as melhores preditoras de desempenho acadêmico posterior (Duncan et al, 2007). Com frequência dividimos estas habilidades entre aquelas associadas à leitura e aquelas relacionadas à matemática.

Habilidades acadêmicas iniciais ligadas à leitura

Segundo a National Early Literacy Panel (NELP, 2008), existem 6 preditores mais importantes para o domínio adequado da leitura:

  • 1) conhecimento do alfabeto;
  • 2) consciência fonológica: diz respeito à capacidade de reconhecer, trabalhar e manipular os sons da fala. Por exemplo, o reconhecimento de rimas (mão-pão) e de palavras que se iniciam com o mesmo som (cabeça-cavalo) são aspectos ligado à consciência fonológica que emergem no período pré-escolar. Esta compreensão quanto aos sons que compõem a fala e a consciência de que é possível diferenciar sons distintos e segmentar estes sons em partes menores (exemplo: saber que a palavra “bala” pode ser segmentada em sílabas – ba-la – e em fonemas – b-a-l-a) é essencial para o processo de decodificação (associação das letras com seus respectivos sons) da leitura.
  • 3 e 4) Nomeação seriada rápida de objetos e cores e de números e letras: a nomeação seriada rápida é geralmente medida através de testes, e mede o quão rápido a criança é capaz de nomear uma sequência de itens em série. A nomeação seriada está ligada à habilidade de buscar representações fonológicas rapidamente da nossa memória de longo-prazo. Esta habilidade está ligada à fluência (ou rapidez) de leitura posterior.
  • 5) Escrita inicial ou escrita do próprio nome: aspectos ligados a processos iniciais da escrita, como a capacidade de escrever o próprio nome ou escrever letras, são também preditivos das habilidades de leitura.
  • 6) Memória fonológica: diz respeito à capacidade de lembrar de informações auditivas faladas em um curto período de tempo.

Além destas habilidades, o estudo também evidencia a importância de outros fatores como: concepções quanto à letra impressa – associada à compreensão sobre como funciona o material impresso (ex. que a leitura é feita da esquerda para a direita; que os livros possuem capa, autor e texto); linguagem oral – incluindo a compreensão da linguagem falada e o nível de vocabulário; e processamento visual – ligada à capacidade de identificar adequadamente símbolos visuais.

Habilidades acadêmicas iniciais ligadas à matemática

O domínio de conceitos matemáticos básicos ao final do período pré-escolar parece ser um grande preditor de desempenho acadêmico na matemática no ensino fundamental (Hanover Research, 2016). Algumas características associadas ao desempenho matemático posterior são:

  • Processamento numérico não simbólico/ senso numérico: o senso numérico corresponde à capacidade inata de representar e manipular magnitudes não-simbólicas. Por exemplo, saber julgar se há mais brinquedos em uma caixa em relação a outra sem precisar contar.
  • Contagem: diz respeito à capacidade de contar adequadamente, obedecendo os princípios de contagem.
  • Identificar números: a capacidade de compreender as distintas representações numéricas, em especial a identificação de números em forma arábica, parece predizer o bom desempenho matemático. Além disso, identificar que os números são ordenados em sequência também faz parte deste domínio.
  • Compreensão geral de conceitos matemáticos: a compreensão de conceitos como mais e menos, maior e menor deve se desenvolver já neste período.

Habilidades não-acadêmicas

Existem diversos fatores não-acadêmicos preditivos de desempenho escolar, como nível socioeconômico, escolaridade parental, distintas habilidades cognitivas da criança (como a inteligência e as funções executivas). Em sua revisão, Hanover Research (2016) ressalta alguns fatores evidenciados como bons preditores acadêmicos:

  • Reatividade temperamental: se refere à sensibilidade do indivíduo à estímulos externos e a intensidade de sua resposta. Distintos estilos de reatividade temperamental podem predizer maior adaptação ao contexto ou se associar, por exemplo, a comportamentos de retraimento, tristeza e raiva. O estilo de reatividade temperamental no período pré-escolar pode afetar a forma como a criança interage com seus pares e com o aprendizado acadêmico, bem como à forma com a qual reage frente a frustrações.
  • Controle cognitivo: diz respeito à capacidade de ajustar os comportamentos de acordo com as demandas do ambiente. Esta flexibilidade cognitiva é benéfica tanto para a aquisição de habilidades acadêmicas quanto para a regulação comportamental em sala de aula. Neste sentido a autorregulação também desempenha um importante papel para o bom desempenho acadêmico.
  • Habilidades motoras finas: Para além de variáveis cognitivas e comportamentais, nota-se que o adequado desenvolvimento motor nos anos iniciais é um preditor importante do desempenho acadêmico nos anos seguintes. A escrita é requerida tanto para a aprendizagem de aspectos básicos de leitura e de escrita, e os aspectos motores devem, portanto, ser levados em conta.

Os processos de aprendizagem são complexos e dependentes de diversos fatores. O investimento na aprendizagem deve ser feito mesmo antes da inserção no ensino fundamental, e conhecer os fatores associados à aprendizagem nos abre caminho para estimular e incentivar o desenvolvimento destas habilidades.

Referências

Duncan, G. J., Dowsett, C. J., Claessens, A., Magnuson, K., Huston, A. C., Klebanov, P., … & Sexton, H. (2007). School readiness and later achievement. Developmental psychology43(6), 1428.

Hanover Research (2009). Early Skills and Predictors of Academic Success [online]. Hanover Research. Available at: https://portal.ct.gov/-/media/SDE/ESSA%20Evidence%20Guides/Early_Skills_and_Predictors_of_Academic_Success

NELP (2008). “Developing Early Literacy: Report of the National Early Literacy Panel.” National Institute of Literacy. Available at: http://lincs.ed.gov/publications/pdf/NELPReport09.pdf