O desempenho escolar é um importante componente da vida de crianças e adolescentes. As responsabilidades acadêmicas muitas vezes se figuram como únicas atividades das crianças, e por isso é comum e esperado que os pais se preocupem com o desempenho de seus filhos. O bom desempenho acadêmico é um importante medidor de aprendizagem e se relaciona com o posterior sucesso profissional. Além disso, muitos alunos se baseiam em seu desempenho acadêmico como forma de autoavaliação, o que impacta sua autoestima (Crocker, 2002).

Embora seja de extrema importância o monitoramento do desempenho escolar dos alunos, nem sempre notas abaixo do esperado são um indicativo de dificuldade ou transtorno acadêmico. Fatores emocionais, motivacionais ou outras características comportamentais podem estar ligadas com o mal desempenho acadêmico. Além disso, para além da função de ensino, a escola também é um ambiente de interação, e aspectos sociais podem atrapalhar a aprendizagem. Uma vez que o processo de aprendizagem requer o estabelecimento da relação entre o aluno, o conteúdo e o educador, as fontes de possíveis dificuldades acadêmicas são muito amplas.

Um importante aspecto para se identificar se a dificuldade acadêmica deve ser melhor investigada para se pensar em possíveis diagnósticos é verificar se ela é frequente/persistente. Algumas crianças apresentam dificuldades em certos conteúdos desde o início do período de alfabetização. Por exemplo, demoram para aprender o alfabeto, têm dificuldades no processo inicial da leitura (relacionar os sons com as letras) ou apresentam dificuldades em conceitos mais básicos da matemática (p. ex., aprender a contar, compreender o conceito de quantidades, identificar números). Outras crianças podem ter dificuldades em manter a atenção por muito tempo ou serem muito agitadas, o que interfere no aprendizado. Às vezes essas dificuldades não aparecem necessariamente nos anos iniciais em termos de notas, pois podem ser compensadas por um esforço grande por parte da criança ou porque a criança tende a receber mais auxílio em relação ao conteúdo e à organização das atividades neste período inicial. Com aumento das exigências escolares e desenvolvimento da independência do aluno, o desempenho escolar pode ser impactado de maneira mais visível. Fatores sociais e emocionais também podem causar baixo desempenho escolar de modo contínuo se não forem abordados. Independentemente da causa, quando o mau desempenho escolar é persistente, é necessário buscar auxílio. A identificação de dificuldades acadêmicas normalmente é feita por um neuropsicólogo ou por um psicopedagogo.

Algumas dificuldades escolares são decorrentes de fatores situacionais. Isso quer dizer que uma condição ou evento momentâneo pode ser a fonte da dificuldade da criança. Neste sentido, observa-se que o desempenho acadêmico da criança anterior ao evento era adequado, e foi afetado pelo evento ou situação em questão. Fatores situacionais podem envolver, por exemplo, a dificuldade de o aluno se relacionar com um professor específico, situação de bullying ou um evento familiar estressor. Nestes casos, é necessário identificar qual é esse fator e buscar resolvê-lo. Muitas vezes o acompanhamento psicológico pode auxiliar na resolução destes problemas. Fatores situacionais podem desencadear sintomas psicopatológicos e gerar problemas emocionais, e por isso devem ser abordados assim que se instalam. É importante ressaltar que é possível que a criança apresente dificuldades mais persistentes e que são agravadas por fatores situacionais – necessitando, portanto, de passarem por uma avaliação para identificação de possíveis dificuldades.

Fatores emocionais e motivacionais podem estar ligados tanto a dificuldades persistentes quanto serem decorrentes de aspectos situacionais. Independentemente da extensão da dificuldade, é essencial que o problema seja abordado assim que identificado. É importante estabelecer com a criança suas responsabilidades em relação à escola, mas também acompanhá-la e buscar compreender a fonte do problema.

Referências

Crocker, J. (2002). The costs of seeking self–esteem. Journal of Social Issues58(3), 597-615.

 

Isabela Sallum

Psicóloga e Mestre em Medicina Molecular pela Universidade Federal de Minas Gerais