A personalidade é um construto complexo que tem motivado estudiosos de diversas áreas do conhecimento, desde a década de 30, a se debruçar sobre como defini-lo, como compreender o modo pelo qual se desenvolve ao longo da vida e que implicações pode ter sobre determinados desfechos em nossa vida pessoal, profissional e social. Ele é definido como um padrão interrelacional de características relativamente constantes manifestadas em ambientes típicos de um determinado organismo (Millon & Davis, 1996; Millon e cols., 2004; Strack & Millon, 2007; Carvalho, 2011). A partir de uma análise psicolexical, ou seja, análise embasada na forma como a nossa linguagem expressa como pensamos, nos comportamos no meio e sentimos nossas experiências de vida, pesquisadores da psicologia conseguiram chegar a um modelo que foi capaz de explicar como as características de personalidade se agrupam, formando um conjunto conceitual operacionalizável e, portanto, passível de ser avaliado e acompanhado (portanto, garantindo replicabilidade científica) de modo consistente ao longo do tempo e entre culturas (John, Naumann, & Soto, 2008; Burrus, & Brenneman, 2016; Kyllonen, Lipnevich, Burrus, & Roberts, 2014 ). 

Esse modelo, denominado “Big Five” e traduzido para o português no Brasil como o Modelo dos Cinco Grandes Fatores (CGF) sofreu um aumento internacional significativo de pesquisas a partir da década de 90 cujos resultados lhe conferiram validação repetidamente.  Ele reúne as características de personalidade em cinco fatores amplos, denominados Abertura ao Novo, Realização (ou Conscienciosidade), Extroversão, Amabilidade e Neuroticismo. Tais fatores são capazes de consubstanciar abstratamente um número diversificado de características (John, et al., 2008).

A Abertura ao Novo envolve o interesse típico em aprender e conhecer coisas e ideias novas, a imaginar o mundo a sua volta, bem como apreciar conteúdos estéticos e artísticos. A Realização compreende aspectos mais executivos do comportamento, sendo voltados para o planejamento, estabelecimento de objetivos e de estratégias para alcançá-los, ordem na execução de determinadas ações, comportamento responsável no sentido do cumprimento de promessas que se faz e de compromissos assumidos com outrem, levando em conta até mesmo as relações contingenciais entre o próprio comportamento e o meio. A extroversão, por sua vez, envolve elementos voltados para as relações sociais, como aqueles voltados para conhecer pessoas novas, iniciar e manter conversas mesmo com desconhecidos, abordar o outro de maneira adaptativa e se comunicar assertivamente com os outros. Já a amabilidade compreende o emprego de afeto nessas relações sociais, portanto aborda a qualidade das relações interpessoais, como ser empático, afetuoso, amável e cooperativo no convívio social. Por fim, o Neuroticismo engloba características que indicam a tendência das pessoas de vivenciarem sentimentos negativos, como tristeza, ansiedade e raiva.

No Brasil, Hutz et. al. (1998), ao replicar o Modelo CGF em seu estudo, encontraram em seus resultados achados que corroboraram a estrutura fatorial de cinco fatores, indicando que o mesmo poderia ser explorado mais profundamente a ponto de desenvolver instrumentos no âmbito nacional para mensurá-lo. Em 2010, ao se basear em diversas escalas que avaliavam fatores individuais do modelo disponibilizadas pelo mesmo grupo de pesquisa desde 2001, Nunes, Hutz, & Nunes (2010) publicaram a Bateria Fatorial de Personalidade (BFP) que possibilitou a investigação de todos os cinco fatores e também de suas facetas, aprofundando o nível de granularidade com que as características de personalidade poderiam ser avaliadas por meio de um único instrumento a ser utilizado como fonte fundamental de informação.

A BFP é um instrumento de autorrelato que é composto por 126 itens que se agrupam em 17 facetas, sendo quatro delas correspondentes aos itens de Extroversão, outras quatro de Neuroticismo, e três facetas de Abertura ao Novo, Amabilidade e Realização, cada. Os itens da BFP podem ser aplicados individual ou coletivamente, costumam levar cerca de 40 minutos para serem respondidos e avaliam as características de personalidade em uma escala Likert de 7 pontos, na qual maiores pontuações indicam aquelas que mais descrevem o avaliando. Em seu manual técnico são descritos os estudos que conferiram ao teste evidências de validade com base em sua estrutura interna e também na relação com outras variáveis (convergência e divergência entre instrumentos), bem como estimativas de precisão por meio de consistência interna (alfa de Cronbach).

Mais tarde, em 2017, a editora Pearson lançou a versão eletrônica do mesmo teste com o propósito de simplificar, facilitar e conferir maior agilidade em todo processo de uso do instrumento, desde sua aplicação até sua correção. Para que isso fosse possível, a editora conduziu estudos entre as formas (impressa e online) para investigar a equivalência delas em suas propriedades psicométricas, normas, objetivo de mensuração e funcionalidades (Andrade, 2017), cujos resultados demonstraram tal equivalência. Como orientação na realização de tais estudos, foram observadas as diretrizes estabelecidas pela International Test Commission (ITC, 2005) que regulamenta os requisitos mínimos para esse tipo de ferramenta. Portanto, a única alteração de uma versão para a outra é a forma de disponibilização dos itens do teste, sendo possível desde então, aplicá-lo no formato informatizado, o que em outras palavras significa dizer que há evidências suficientes sugerindo a possibilidade de uso dessas versões sem que isso acarrete alterações expressivas no uso do instrumento.

Assim, o Brasil não apenas conta com um instrumento cientificamente robusto para a avaliação da personalidade embasado em um modelo com uma base empírica inter-cultural que o sustenta, mas também conta com recursos tecnológicos que possibilitam o emprego de tempo do psicólogo onde ele realmente faz a diferença no emprego de técnicas que envolvem testagem psicológica: o de analisar os resultados à luz do contexto no qual o avaliando está inserido e o de conjugar em seu olhar outras fontes de informação que lhe permitem dar sentido a todos os achados do processo avaliativo.

Quer utilizar esse instrumento? Acesse: https://www.pearsonclinical.com.br/bfp-bateria-fatorial-de-personalidade.html

Aplicação e correção online: https://testes.pearsonclinical.com.br

Texto escrito por: Gisele Alves – Psicóloga e Mestre em Avaliação Psicológica pela Universidade São Francisco;

Referências

Andrade, J. M. (2017). Aspectos Contemporâneos do Desenvolvimento de Medidas da Personalidade. Em: 8º Congresso Brasileiro de Avaliação Psicológica, Florianópolis.

Burrus, J., & Brenneman, M. (2016). Psychosocial skills: Essential components of development and achievement in K-12. In A. A. Lipnevich, F. Preckel, & R. D. Roberts (Eds.), The Springer series on human exceptionality. Psychosocial skills and school systems in the 21st century: Theory, research, and practice, 347-372. Cham, Switzerland: Springer International Publishing.

Carvalho, Lucas de Francisco. (2011). Teoria, avaliação e psicoterapia segundo a proposta de Theodore Millon. Psico-USF, 16(3), 339-347.

Hutz, C.S., Nunes, C.H.S., Silveira, A.D., Serra, J., Anton, M., & Wieczoreck, L.S. (1998). O desenvolvimento de marcadores para a avaliação da personalidade no modelo dos cinco grandes fatores. Psicologia: reflexão e crítica, 11(2), 395-411.

International Test Commission (2005). ITC Guidelines on Computer-Based and Internet Delivered Testing. International Test Commission. Disponível On-line em: http://www.intestcom.org/upload/sitefiles/62.pdf

John, O.P., Naumann, L.P., & Soto, C.J.(2008). Paradigm shift to the investigative Big Five Trait Taxonomy: history, measurement, and conceptual issues. Em: O.P. John, R.W. Robins, & L.A. Pervin (Orgs), Handbook of persoanlity: theory and reserach (3ª ed., pp. 114-158). Nova York, NY: Gilford.

Kyllonen, P. C., Lipnevich, A. A., Burrus, J., & Roberts, R. D. (2014). Personality, Motivation, and College Readiness: A Prospectus for Assessment and Development. ETS Research Report Series, 1–48. Princeton, NJ: Educational Testing Service. doi: 10.1002/ets2.12004

Millon, T. & Davis, R. D. (1996). Disorders of personality DSM-IV and beyond. Nova Jersey: Wiley. 

Millon, T. Millon, C. M., Meagher, S. Grossman, S. & Ramanath, R. (2004). Personality disorders in modern life. Nova Jersey: Wiley. 

Nunes, C. H. S., Hutz, C. S., & Nunes, M. F. O. (2010). Bateria fatorial de personalidade manual técnico. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Strack, S. & Millon, T. (2007). Contributions to the dimensional assessment of personality disorders using Millon’s model and the Millon Clinical Multiaxial Inventory (MCMI9-III). Journal of Personality Assessment, 89(1), 56-69.