Dia e noite as nossas mentes vagueiam. Vagueiam de um modo errante entre o passado e futuro, através de diferentes realidades, entre nós e os outros. Neste processo de errância, as nossas mentes cobrem um território imenso, iludindo as fronteiras do espaço e tempo e indiferentes aos constrangimentos da realidade física. Não raras vezes nós encorajamos as nossas mentes a vaguear enquanto escutamos Mozart, contemplamos Dégas, ou simplesmente nos recostamos na nossa poltrona favorita. Outras vezes, é a própria mente que nos escapa quando procuramos nos concentrar  num livro ou numa conversa.

Sabe-se hoje que, durante o nosso estado de vigília, a nossa mente está em estado de errância cerca de 50% do tempo. Esta prevalência é ainda maior se olharmos para o que se passa durante o sonho, que constitui talvez a forma mais extrema de errância mental. 

Esta errância parece assim constituir um modo padrão de atividade mental. Curioso sublinhar que este tipo de padrão está associado a uma rede cerebral de modo padrão – particularmente ativa quando o indivíduo não é solicitado para uma atividade que implica um direcionamento específico da atenção.

Considerando a sua prevalência e ubiquidade, é surpreendente que tão pouco atenção tem sido dada pela ciência a este estado dominante de atividade mental.

Nesta obra – Cérebro Errante – procuro mostrar como é que a nossa vida mental resulta de um processo de alternância entre períodos de atenção focalizada e errância mental.  Cada um destes estados cumpre funções específicas, estando dependente de redes cerebrais contrastantes. Enquanto a atenção focalizada procura aumentar a acurácia e rapidez com que respondemos a estímulos externos, sendo fundamental em contextos em que procuramos minimizar a probabilidade de erro – erro zero; na errância mental, preparamo-nos para lidar com a incerteza. Neste livro,  mostro o modo como as redes neuronais associadas à atenção focalizada nos capacitam para lidar com a realidade física e, por contraste, as redes neuronais ligadas à errância – o cérebro errante – nos preparam para lidar com a realidade psicológica e social. 

A adaptação aos domínios da realidade física (teoria do mundo)  e psicológica (teoria da mente) requer a capacidade de mobilizar e alternar mecanismos de atenção focalizada (mente plena) e mente errante – isto é mente plena errante – mind(wander)fulness. 

Esta obra aborda pela primeira vez estes temas no contexto das neurociências, propondo estratégias para potenciar os benefícios.

Texto escrito por:

Óscar F. Gonçalves, autor do livro Cérebro Errante