Qual o propósito de um diagnóstico? A resposta mais direta a essa pergunta seria que o diagnóstico serve para identificarmos um problema ou doença adequadamente, para definirmos uma intervenção. As intervenções podem buscar tanto a cura para o problema quanto uma maior adaptabilidade do paciente à sua condição de saúde. O que tomamos a partir desta definição é que, quando tratamos de avaliação neuropsicológica, não pode existir diagnóstico se não houver um encaminhamento para o tratamento do problema. E ao trabalharmos com crianças, especialmente quando abarcamos os transtornos do neurodesenvolvimento, tipicamente a escola será um dos focos para auxiliar na adaptação da criança e, consequentemente, estruturar uma melhor inclusão escolar.

 

De maneira geral, a inclusão escolar diz respeito à inserção de todas as pessoas, independente de quaisquer características, no sistema de ensino. De maneira mais específica, o termo é comumente usado para caracterizar a inclusão de pessoas com algum tipo de deficiência ou necessidades especiais. A visão da neuropsicologia sobre os processos de aprendizagem engloba a compreensão do que é esperado em relação ao desenvolvimento neurobiológico, dos domínios cognitivos subjacentes à aprendizagem e de como o ambiente participa deste processo. A abordagem neuropsicológica admite que existem processos de aprendizagem comuns e aplicáveis à maioria dos alunos, mas que é também necessário entender sobre diferenças individuais para que o ensino seja mais bem adaptado aos alunos. Neste sentido, a avaliação neuropsicológica permite a identificação do perfil cognitivo e comportamental do aluno com algum tipo de dificuldade, traçando aspectos de potencialidades e dificuldades para além do diagnóstico final. A partir disso, auxilia na estruturação de estratégias de inclusão escolar.

 

Um aspecto essencial da avaliação neuropsicológica é a escolha de instrumentos adequados para avaliar a demanda. Neste sentido, ainda são poucos os instrumentos adequados para avaliar crianças com dificuldades motoras ou de linguagem. Para sanar parte deste problema, será lançada a nova versão da Escala de Maturidade Mental Colúmbia, na sua 3ª edição (CMMS – 3). O instrumento é restrito para psicólogos, e busca avaliar maturidade mental e capacidade cognitiva global em crianças de 3 anos a 9 anos e 11 meses. A capacidade cognitiva global diz respeito à capacidade de raciocínio geral, um termo próximo à definição de inteligência, e determina o nível global de funcionamento cognitivo da criança. A CMMS – 3 apresenta aplicação fácil e rápida (entre 20 a 30 minutos) e é um dos poucos instrumentos que abarca a faixa pré-escolar. Sua nova normartização está adequada à população brasileira atual e permite um melhor uso do instrumento. O teste é adequado para avaliação de crianças típicas, mas também apresenta vantagens para ser aplicado em crianças com dificuldades de linguagem expressiva e motoras. De maneira geral, o teste é especialmente útil para avaliar crianças com suspeita de déficits cognitivos, crianças com paralisia cerebral com boa compreensão de linguagem, mas que apresentam prejuízo na motricidade e na linguagem expressiva, crianças com transtorno do espectro autista e crianças com transtorno específico de linguagem. Neste sentido, a CMMS – 3 é um instrumento interessante para auxiliar na avaliação de crianças com necessidades especiais.

 

Segundo a Lei Federal 9.394/96, art. 58, que versa sobre a educação especial, educandos com necessidades especiais podem requerer apoio especializado na escola. A avaliação neuropsicológica, feita de maneira cuidadosa e utilizando-se dos instrumentos mais adequados, pode auxiliar nos diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento e na caracterização cognitiva e comportamental de pacientes com síndromes genéticas e outros acometimentos de saúde. Assim sendo, pode ser de extremo auxílio para que os direitos dos alunos portadores de necessidades especiais sejam garantidos.

 

Texto escrito por:

Isabela Sallum

Psicóloga e mestre em Medicina Molecular

Integrante do Instituto Lumina Neurociências Aplicadas à Saúde Mental