O objetivo deste texto é dialogar sobre a importância da resolução de conflitos no desenvolvimento infanto-juvenil e o papel das competências socioemocionais para este fim.

Personalidade é um construto que se destaca pela dificuldade em ser definido e estudado, apesar de ser um dos mais antigos tópicos de pesquisa e curiosidade do ser humano. A palavra tem sua etimologia do latim personare, que significa ‘ressoar’, fazendo com que seu conceito primário esteja relacionado com aquilo que ‘ressoa’ de um indivíduo. Em outras palavras, pode-se entender que a personalidade é um conjunto de atributos pessoais que se expressam por meio do comportamento, pensamento e emoção. Inúmeros estudos mostram que este conjunto de características são preditivos para o desempenho futuro de um indivíduo, pois influenciam diretamente no sucesso pessoal e profissional. Ainda, é possível afirmar que são maleáveis, pois estão em desenvolvimento por meio de experiências formais e informais de aprendizagem.

Principais tópicos abordados:
> O modelo socioemocional para avaliação da personalidade.
> Situações de conflitos e resolutividade.
> Desenvolvimento socioemocional e resolução de conflitos.

No contexto da aprendizagem, o modelo de competências socioemocionais tem ganhado espaço – muito devido à programas como o da UNESCO (Educação para o século 21) e da OCDE (Programa Internacional de Avalição Estudantil, o PISA). Utilizando-se da taxonomia dos cinco grandes fatores de personalidade, vem conquistando adeptos em diversos países, embasando propostas de intervenções educacionais, por conseguir três resultados satisfatórios.  O primeiro é por conseguir se relacionar diretamente com resultados importantes da vida de um indivíduo, como seu papel de cidadão e mão de obra social. O segundo resultado encontra-se no fato de que este modelo encara as competências como sendo maleáveis, permitindo transformações a partir das experiências de vida – o que leva ao terceiro resultado, que se trata de serem competências influenciadas diretamente ao processo ensino-aprendizagem, em especial quando se há uma intenção em desenvolvê-las. Desta maneira, situações cotidianas podem se beneficiar quando as competências socioemocionais são desenvolvidas: como, por exemplo, a resolução de conflitos.

Os conflitos perpassam por toda a cronologia de uma pessoa. Contudo, a literatura mostra que é na fase infanto-juvenil que há uma maior tendência ao acontecimento. Isto pode ser resultado de um crescente esforço, nesta fase, para uma maior autonomia. Estes conflitos resultam principalmente das expectativas discrepantes dos filhos(as) e dos pais em relação ao comportamento apropriado e ao momento das transições em autoridade, autonomia e responsabilidades. Alguns conflitos com os pais podem, assim, ser considerados como uma parte normal das relações familiares durante esta fase, possuindo uma função clara no desenvolvimento da autonomia e da individualização do infante.

Assim, reconhecendo as causas que geram conflitos, é imprescindível buscar compreender formas de resoluções para eles. Em linhas gerais, a resolução de conflitos inclui reconhecer que outras pessoas podem ver uma situação de uma perspectiva diferente da sua. Discutir e compartilhar as experiências emocionais aumenta a conscientização de crianças e adolescentes em relação a sinais que refletem seus estados emocionais e a dos outros. Com isto, a expressividade destes sentimentos e emoções são amplamente necessários para o desenvolvimento de regulamentos emocionais e comportamentais. Por sua vez, representações internas imprecisas, que funcionam como fundamentos para regras sociais aprendidas podem afetar a autorregulação, que passam a se desenvolver a partir de dificuldades de linguagem, interações sociais e relacionamentos intra e interpessoais.

Com isto, desenvolver as competências socioemocionais, dentro do âmbito educacional, pode ser uma ferramenta poderosa para colaborar com a resolução de conflitos. Ao analisar a estrutura que as competências socioemocionais são propostas, percebe-se um circumplexo de fatores mais abrangentes que são compostos por fatores menores, ou facetas. Facetas são estruturas mais específicas da personalidade – um exemplo para a questão da resolução de conflitos é a faceta empatia. Esta faceta se caracteriza por comportamentos de bondade e carinho para com os outros, assim como seu bem-estar, valorizando a qualidade de seus relacionamentos. Ela, junto com as facetas confiança, respeito e modéstia, compõe o fator Amabilidade. Percebe-se, então, que o olhar que as competências socioemocionais dão para a estruturação da personalidade no contexto educacional permite intervenções mais acuradas e com maior probabilidade de conseguir resultados mais eficazes e duradouros.

Voltando para a resolução de conflitos, e com base no que fora apresentado até aqui, entende-se a importância que o desenvolvimento das competências socioemocionais possuem para, mas não limitado a, resolução de conflitos. Estas informações podem ser usadas por pais, professores e escolas para (a) entender quais destas competências importam para quais situações ou resultados, (b) por que elas são importantes e (c) como podem ser promovidas. Somente assim, será possível adaptar os ambientes de aprendizagem no intuito de melhorar o bem-estar social destes indivíduos, da mesma forma que as perspectivas de futuro destas e a qualidade de suas relações sociais.

Para saber mais:

Barbarin, O.A., & Wasik, B.H. (2009). Handbook of child development and early education: research to practice. New York: The Guilford Press

Heckman, J.J., & Kautz, T. (2012). Hard evidence on soft skills, Labour Economics, 19(4), 451-464. doi: 10.1016/j.labeco.2012.05.014

OECD. (2018). Social and emotional skills: Well-being connectedness and success. Retrieved from: http://www.oecd.org/education/school/UPDATED%20Social%20and%20Emotional%20Skills%20-%20Well-being,%20connectedness%20and%20success.pdf%20(website).pdf

Sobre o autor:

João Paulo Araújo Lessa é psicólogo (CRP 15/3753), mestre e doutorando em Psicologia, ênfase em Avaliação Psicológica, pela Universidade São Francisco. Pesquisador assistente do Laboratório de Ciências da Educação (EduLab21) do Instituto Ayrton Senna. Desenvolve estudos sobre avaliação e desenvolvimento da personalidade em contextos educacionais.

Editor Lucas de Francisco Carvalho, professor do programa de pós-graduação stricto sensu em psicologia da Universidade São Francisco.