Neste texto, você poderá compreender qual a importância do conceito de tomada de decisão responsável e qual sua relação com o desenvolvimento das competências socioemocionais.  


Principais tópicos abordados:

  • As competências socioemocionais e as demandas atuais do Brasil.
  • O conceito de tomada de decisão responsável.
  • Contribuição dessas competências no desenvolvimento humano.

Ao longo dos últimos anos, a educação vem passando por profundas e aceleradas mudanças no que diz respeito às atribuições de ensino e grades curriculares, assim como, quais as competências que se buscam desenvolver nos indivíduos. No Brasil, a movimentação mais recente vem sendo observada por meio das novas diretrizes propostas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a proposta de Educação para o século 21 (proposta pela UNESCO) e a proposta de Ensino Integral, a qual estabelece 10 competências gerais que devem ser desenvolvidas de forma integrada aos componentes curriculares ao longo de toda a educação básica. Ao mesmo passo, o foco no desenvolvimento de competências dos alunos também tem sido observado em processos de avaliação de larga escala, através de estudos com o PISA (Programme For International Student Assessment) e o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).

As reflexões e reestruturação de metodologias e propostas de ensino-aprendizagem permeiam, principalmente, a importância de serem desenvolvidas as competências socioemocionais no ambiente escolar, a fim de estimular o desenvolvimento integral da criança, do adolescente e do jovem, visando que estas competências estejam alinhadas com o perfil futuro do trabalhador durante a fase adulta. Reconhecidas como competências do século 21, as competências socioemocionais vão além do aprendizado da leitura e escrita, da matemática e outras ciências ensinadas na escola, entrelaçando a importância de se desenvolver a colaboração, persistência, organização e criatividade, superação, otimismo e confiança, responsabilidade e ética nas relações humanas. 

Diretamente relacionada as emoções, estudiosos inferiram que a educação socioemocional está diretamente associada ao manejo das emoções, da autoconsciência, autogestão e consciência social, habilidades de relacionar-se e de tomada de decisão responsável, sendo necessário seu desenvolvimento dentro e fora do âmbito escolar, frente a diferentes situações do cotidiano. Especificamente no que tange a tomada de decisão responsável, alvo deste texto, pode-se dizer que esta competência se relaciona às escolhas pessoais e as interações sociais frente a determinadas normas e padrões éticos sociais de conduta.

De modo mais claro, a tomada de decisão responsável reflete sobre as decisões as quais o indivíduo irá tomar diante de situações às quais lhe seja cobrado uma escolha. Neste caso, a principal característica dessa competência está em realizar escolhas construtivas consolidadas e respaudadas pela ética e pelos padrões sociais, por meio de uma avaliação realista das conseqüências de várias ações e  consideração do bem-estar de próprio indivíduo.

Algumas pesquisas sugerem que, até que a tomada de decisão seja concretizada, algumas etapas ocorreriam e, dessa forma, poderiam ser desenvolvidas. A primeira delas seria a identificação do problema, acompanhado da análise da situação e das possibilidades de resolução deste problema. Na sequência, o indivíduo passa por um processo de avaliação e reflexão no qual reflete sobre as possibilidades de ação, estratégias e consequências de suas ações. Nessa etapa final, componentes como responsabilidade ética, questões morais e vivências históricas influenciam e poderiam determinar a tomada de decisão responsável. 

E qual a contribuição de se desenvolver essa competência durante a infância e adolescência?

O investimento em atividades e programas que promovam o desenvolvimento dessa competência em crianças e adolescentes favorece que habilidades importantes como de planejar suas ações, identificar estratégias positivas, estabelecer relações de causa e consequência, assim como refletir sobre os aspectos morais e valores éticos de vivência em sociedade, sejam aprimoradas. O investimento nessas competências sugere ainda benefícios no desempenho escolar, otimizando as relações entre os pares, a familia e, nessa perspectiva, a longo prazo, nas relações entre indivíduo e seus diferentes contextos, fortalencendo e contribuindo para que, quando adultos, possam realizar escolhas mais assertivas e estruturadas.

Dessa forma, com a implementação das novas propostas na educação  e o investimento no desenvolvimento das competências socioemocionais e, em especial, da competência de tomada de decisão responsável, desde o início da infância, há a possibilidade de formação de indivíduos mais conscientes de suas ações, que possam fazer escolhas mais assertivas, tendo melhor qualidade de vida. Assim, pessoas colaborativas, com persistência, criatividade, confiança, responsabilidade e ética nas relações humanas favorecem a vivência em sociedade. 

Para saber mais: 

Coelho, V., Sousa, V. & Figueira, A. P. (2014). The Impact of a School-Based Social and Emotional Learning Program on the Self-Concept of Middle School Students. Revista de Psicodidáctica, 19 (2), 347-365. Doi: 10.1387/RevPsicodidact.10714.

Carvalho, R. S. & Silva, R.R. D. (2017). Currículos socioemocionais, habilidades do século XXI e o investimento econômico na educação: as novas políticas curriculares em exame. Educar em Revista, 63, 173-190. Doi: http://dx.doi.org/10.1590/0104-4060.44451.

Durlak, J. A., Weissberg, R. P., Dymnicki, A. B., Taylor, R. D. & Schellinger, K. B. (2011). The impact of enhancing students’ social and emotional learning: a meta-analysis of school-based universal interventions. Child Development, 82 (1), 405-432. doi: 10.1111/j.1467-8624.2010.01564.x.

Machado, P., Veríssimo, M., Torres, N., Peceguina, I., Santos, A.  J., & Rolão, T. (2008). Relações entre o conhecimento das emoções, as competências académicas, as competências sociais e a aceitação entre pares. Análise Psicológica, 26(3), 463-478. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/pdf/aps/v26n3/v26n3a08.pdf

Sobre a autora:

Carolina Rosa Campos é pós-doutoranda do programa de pós-graduação stricto sensu em Psicologia da Universidade São Francisco. É psicóloga, mestre e doutora pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Desenvolve estudos na área da avaliação psicológica com foco em habilidades cognitivas, tendo principal interesse em populações minoritárias. 

Editor Lucas de Francisco Carvalho, professor do programa de pós-graduação stricto sensu em psicologia da Universidade São Francisco.