Em comparação a outras áreas de atuação do psicólogo, a psicologia das emergências e desastres pode ser considerada um campo novo para a prática profissional.  Inicialmente a Sociologia e a Geografia Humana eram as áreas que se preocupavam com o estudo das emergências e desastres. Pesquisas realizadas por estas disciplinas entendiam a repercussão e consequências individuais frente a esses fenômenos pequenas demais para receber grandes considerações.

O envolvimento da Psicologia nesta arena ocorreu de forma gradual. Os primeiros registros referentes à Psicologia das Emergências e dos Desastres estão relacionados com as guerras mundiais, principalmente ao fenômeno do estresse pós-traumático também conhecido como fadiga de batalha, neurose de guerra ou flashbacks. O primeiro estudo mais sistematizado relacionado à área de intervenção pós-desastre foi realizado em 1944, por Lindermann e constituiu-se na avaliação das respostas psicológicas ocorridas em um incêndio em uma boate, em Boston (EUA) no qual morreram mais de 400 pessoas. Na ocasião foi realizado um levantamento das reações psicológicas dos sobreviventes, sendo este o marco teórico de um começo de organização da pesquisa e intervenção do campo.

De 1900 ao ano de 1950 foram realizados pesquisas e trabalhos esporádicos totalmente influenciados pela psiquiatria e com uma visão da época da Segunda Guerra Mundial. Isso se justifica pela expectativa de uma guerra nuclear, sendo que havia grande investimento na compreensão da reação das pessoas frente à ocorrência de desastres e emergências para que, na eventualidade de um ataque nuclear ter-se o conhecimento de como conduzir esse tipo de trabalho. A perspectiva da análise psicológica da década de 1960 e 1970 se voltou para reações individuais, contemplando-se reações extremas e com discussões acerca do estresse pós-traumático, categoria que foi incluída no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM IV, em 1994, apesar de já existir na literatura desde a Primeira Guerra Mundial. Nesta época era dada pouca ênfase na comunidade como um todo, ou seja, como estrutura de proteção para os sobreviventes e de significação para os atingidos.

No Brasil o primeiro registro do processo histórico de inserção da Psicologia no estudo, pesquisa e intervenção nas emergências e nos desastres é datado de 1987 com o acidente do césio-137, em Goiânia, sendo caracterizado como o maior acidente radioativo já ocorrido no país. No ano de 2006, realizou-se o I Seminário Nacional de Psicologia das Emergências e dos Desastres, fruto da parceria entre a Secretaria Nacional de Defesa Civil e do Conselho Federal de Psicologia.

De seu surgimento até os dias atuais diversas mudanças ocorreram. À medida que o psicólogo intensificou sua participação nessa área, alguns conceitos foram revisados e até mesmo abandonados enquanto que outros foram consolidados.  Atualmente, o campo da Psicologia das Emergências e dos Desastres estuda o comportamento humano dentro de contextos como catástrofes, desastres ou situações-limite vividas no cotidiano urbano. Apresenta um foco que engloba, desde a ação preventiva até o pós-trauma, subsidiando intervenções de compreensão, apoio e superação do trauma aos atingidos e profissionais envolvidos, somado a perspectiva da construção de comunidades mais seguras. Isso se dá por meio de trabalhos comunitários relacionados à percepção de risco, orientação quanto à absorção passiva de impactos ambientais adversos, desenvolvimento de solidariedade comunitária em meio a desastres, capacitação comunitária na estimativa de custos de proteção e alteração de comportamentos de risco a nível individual e social. Com isso, a na atuação do psicólogo pode ser observada na prevenção, preparação, resposta e reconstrução do cenário após a ocorrência de emergências e desastres.

Cabe ressaltar que, a atuação do psicólogo será sempre em equipe multidisciplinar e, na maioria das vezes, no próprio cenário da emergência ou desastre. Isso inclui o relacionamento direto com todo tipo de profissionais, tais como técnicos, médicos, trabalhadores sociais, sociólogos, engenheiros, entidades de resgate e de ajuda como a Cruz Vermelha, polícia, exército, defesa civil, entre outros. Além disso, as contribuições dos demais ramos da psicologia enriquece o trabalho do psicólogo que trabalha em situações de emergência, pois o auxilia a prestar um serviço mais flexível e adaptado à complexidade que se faz presente nessas situações. Desse modo são importantes conhecimentos relacionados à Psicologia clínica, Psicologia educacional, Psicologia da Saúde, Psicofisiologia, Psicologia organizacional e Psicologia social e comunitária.

De forma mais direta, o trabalho do psicólogo pode se caracterizar pelo atendimento às vítimas no momento seguinte ao desastre, por meio do primeiro auxilio psicológico. Trata-se de uma abordagem focal com vistas a promover uma ventilação emocional e consequentemente minimizar o potencial traumático causado pelo evento. Tal abordagem tem por objetivo a redução de sintomas e do adoecimento psicológico futuro. Porém a atuação clínica mediante detecção e intervenção em sintomas e psicopatologias não é a única opção. A intervenção também pode ocorrer de modo indireto mediante prestação de serviços voltados a preparação ou formação dos agentes que atuam nessas ocorrências, incluindo voluntariados e profissionais de outras áreas. Essa modalidade de trabalho geralmente é viabilizada pelo Governo, Sistema Nacional de Defesa Civil, ONG’s ou, em casos específicos, por empresas envolvidas diretamente nas tragédias. Existe ainda a possibilidade de trabalhos de intervenção comunitária, em contexto nacional e internacional, mediante a inserção em uma organização humanitária, como por exemplo, Médicos sem fronteiras, Cruz vermelha, frentes de trabalho da ONU, entre outras.

É necessário que o psicólogo que pretende atuar, ou atua, nesta área faça formação específica e possua competências relacionadas a aptidões sociais, técnicas de comunicação, conhecimentos sobre comportamentos coletivos e conhecimentos técnicos de intervenção em emergências. Essas atribuições devem ser somadas ao acompanhamento psicoterápico, em função das especificidades que esse contexto impõe, sendo que tal necessidade se estende aos demais profissionais que atuam nessa área.

Diante do constante aumento de eventos de desastres e emergências ao redor do mundo e da impossibilidade de controle e intervenção de um fenômeno sem conhecê-lo, evidencia-se a necessidade de uma maior amplitude de profissionais nesta modalidade de atuação assim como maiores investimentos e esforços na formação profissional e capacitação para lidar com as questões requeridas pelo contexto.

Para saber mais:

Franco, M. H. P. (2005). Atendimento psicológico para emergências em aviação: a teoria revista na prática. Estudos de Psicologia (Natal), 10(2), 177-180.

Franco, M. H.P. (2015). A intervenção psicológica em emergências: fundamentos para a prática. São Paulo: Summus.

Sobre o autor:

Ana Maria Reis é psicóloga, mestre e doutoranda no Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em psicologia da Universidade São Francisco em parceria com a Universidad de La Habana. Desenvolve estudos na área de avaliação psicológica em vitimas de desastres e emergências incluindo desastres ambi