Todo clínico já se deparou com um fato: encontrar desempenho(s) abaixo do esperado em um instrumento sem que exista correlação e compatibilidade clínica e funcional. Apesar de todo clínico já ter se deparado com esse fator, nem todos compreendem o porquê de isso acontecer, e, em especial, o que fazer com essas informações.

Resultados espúrios são escores em testes ou tarefas que ficam com desempenho classificado diferentemente do que se observa na vida real para o mesmo constructo. Normalmente nos atentamos mais para os resultados espúrios negativos, pois eles podem nos induzir a concluir por um déficit inexistente. 

Exemplo, seu cliente não possui nenhuma queixa, observação ou relato funcional de falhas de memória episódica, mas ao executar o teste que avalia esse domínio, alguns escores ficaram abaixo do esperado.

Nesse momento, precisamos entender que:

  1. a chance de ocorrência de resultados espúrios aumenta a medida em que incluímos mais e mais testes (e consequentemente mais escores) em uma avaliação;
  2. a chance de ocorrência de resultados espúrios aumenta a medida em que reduzimos o limite de normalidade;
  3. os testes possuem fidedignidade e, portanto, sempre consideram a ocorrência de erros de mensuração;
  4. escores precisam ser interpretados em conjunto com as informações clínicas e funcionais.

Se juntarmos esses quatro eixos básicos, o desconforto em alegar que aquele resultado é espúrio reduz e nossa interpretação e conclusão clínica da avaliação passa a correr menos riscos de erros. Como neuropsicólogos buscamos sempre nos instrumentos uma fonte extra de informação quantitativa, mas para lidar com essa fonte de informações preciosas é preciso entender que ela também traz consigo detalhes na nossa atuação. 

A obra Psicometria e Estatística Aplicadas a Neuropsicologia Clínica aborda esse e outros tópicos de forma aplicada a prática clínica do neuropsicólogo. O principal objetivo da obra é levar ao clínico informações dessas duas áreas que impactam a nossa prática profissional, visando aumentar o conhecimento, a crítica e o conforto nesses assuntos. Por não ser uma obra específica de psicometria ou de estatística não são aprofundados os detalhes característicos de cada uma dessas áreas em suas complexidades. Em contrapartida, são discutidos tópicos aplicados pouco vistos em livros específicos dessas áreas, como os resultados espúrios, os limites de normalidade adotados, a conversão entre escores e outros tópicos que na clínica são fontes constantes de dúvidas e desconforto.

Essa obra visa diminuir o abismo enxergado entre os profissionais da clínica entre a sua atuação e os usos desses conhecimentos. Reduzindo esse abismo, os profissionais descobrirão portas abertas para se aprofundarem com mais segurança em tópicos dessas áreas que tanto impactam a nossa prática. 

Texto escrito por:

Laiss Bertola, autora do livro Psicometria e estatística aplicadas a neuropsicologia clínica