Quando um parente, amigo ou cônjuge passa por uma situação de sofrimento mental, muitos de nós prontamente desejam ajudar, mas às vezes nos falta o conhecimento sobre o que fazer nestas situações.

A depressão é um dos transtornos mentais com maior prevalência na população, e afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo1. Apesar de muitos de nós já termos ouvido falar deste transtorno, com frequência evitamos tocar no assunto por vergonha, desconhecimento ou mesmo tabu. Neste texto, serão apresentadas algumas dicas sobre como ajudar pessoas queridas que apresentam depressão.

  • Conheça a depressão
  Quadro 1. Sintomas dos transtornos depressivos
Os transtornos depressivos são caracterizados por alteração do humor, e apresentam como principais sintomas a tristeza intensa e/ou a perda de interesse ou prazer. Além desses sintomas, são característicos do transtorno:

·         Sentimentos de culpa

·         Baixa autoestima

·         Alterações no sono ou no apetite

·         Dificuldades de concentração

·         Sensação de cansaço e perda de energia

·         Agitação ou diminuição da atividade psicomotora

·         Pensamentos recorrentes de morte

Nem todos esses sintomas obrigatoriamente estarão presentes no quadro, mas é necessário que alguns deles apareçam para que se estabeleça o diagnóstico. Além disso, os sintomas devem causar sofrimento significativo ou prejuízos no funcionamento pessoal, social ou laboral. De acordo com a gravidade dos sintomas, os transtornos depressivos são classificados como leve, moderado ou grave. Existem 2 tipos de transtornos depressivos, o Transtorno Depressivo Maior e o Transtorno Depressivo Persistente (Distimia):

Transtorno Depressivo Maior Transtorno Depressivo Persistente
Característica: sintomas são mais intensos e agudos, mas os episódios são mais curtos.

Tempo de duração para diagnóstico: sintomas devem estar presentes a maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos 2 semanas.

Característica: sintomas tendem a ser mais leves, mas os episódios duram mais tempo – depressão crônica.

Tempo de duração para diagnóstico: sintomas devem estar presentes a maior parte do dia, quase todos os dias, por pelo menos 2 anos. Durante este período, o paciente jamais esteve sem os sintomas por mais de dois meses.

A depressão é uma condição séria de saúde e saber como identifica-la é essencial para seu tratamento. O quadro 1 apresenta a caracterização dos sintomas da depressão.

*Quadro baseado nos dados do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – DSM-5

 

 

É importante compreender que a depressão não é sinônimo de tristeza e não pode ser explicada exclusivamente por algum acontecimento estressor momentâneo. Tristeza, raiva, culpa e desapontamento são sentimentos comuns e adequados a determinadas situações. Expressar tais emoções com intensidade adequada e em contextos específicos é inclusive saudável, mas quando elas se tornam constantes e geram prejuízo significativo, já são sinais para preocupação.

  • Identifique as características da depressão
  Quadro 2. Identificando comportamentos frequentes da depressão
Para identificar possíveis sintomas depressivos, tente responder às perguntas abaixo. Lembre-se que os comportamentos abaixo devem aparecer com muita frequência, e não só em uma situação.

Seu amigo/parente/cônjuge:

·         Parece estar triste o tempo todo?

·         Chora ou parece que vai chorar com frequência sem motivo aparente?

·         Tem variações de humor e fica mais irritado do que o normal?

·         Expressa sentimentos de culpa o tempo todo – pede desculpas o tempo todo, mesmo sem ter muito motivo?

·         Demonstra se sentir mal consigo mesmo? Expressa baixa autoestima?

·         Parece não se interessar mais em fazer coisas que antes lhe davam prazer? – por exemplo, não tem interesse em realizar hobbies ou atividades que gostava.

·         Demonstra estar cansado o tempo inteiro, sem energia, mesmo realizando a mesma quantidade de atividades?

·         Isola-se e evita situações sociais? Passa a interagir menos do que o normal?

·         Passou a comer mais ou menos? – observa-se ganho ou perda de peso sem intenção

·         Tem dificuldades para dormir ou dorme demais?

·         Parece ter dificuldade em se concentrar em conversas ou expressa tal dificuldade para outras áreas?

·         Tem dificuldades de concluir tarefas que antes lhe pareciam simples?

·         Expressa pensamentos negativos sobre a vida com frequência?

·         Passou a consumir bebida alcoólica ou usar outras substâncias com mais frequência do que o habitual? – o uso dessas substâncias por si só não são indicativos de transtornos, mas podem ser usadas como forma de automedicação

Além de conhecer a sintomatologia da depressão, é importante observar os comportamentos indicativos do transtorno, conforme demonstrados no Quadro 2.

 

  • Aprenda como abordar o assunto

 

Após identificar os sintomas característicos da depressão, é importante saber como agir. A abordagem inicial é demonstrar seu apoio à pessoa e compreensão sobre seu quadro. Muitas vezes evitamos tal abordagem por medo de as pessoas rechaçarem nossa ajuda, ou ficarem com raiva ou mesmo dispensarem a ajuda. É importante saber que, de maneira geral, as pessoas estão abertas à ajuda e elas se sentem acolhidas quando isso lhes é oferecido. Abaixo estão listadas algumas formas de abordar o assunto.

 

O que você pode dizer para iniciar a conversa3:

 

“Estou me sentindo preocupada/o com você ultimamente”

“Tenho visto algumas coisas diferentes em você e fiquei preocupada/o”

“Queria saber como você está. Você não parece muito bem ultimamente”

 

Perguntas que você pode fazer3

“Quando você começou a se sentir desse jeito?”

“Aconteceu alguma coisa que te fez sentir desse jeito?”

“Como eu posso te apoiar?”

“Você já pensou em procurar ajuda mais especializada?”

É importante evitar abordagens que culpabilizem ou diminuam o sofrimento da pessoa. Veja as coisas que você pode falar para ajudar, e aquelas que você deve evitar falar no quadro abaixo, adaptado e traduzido da instituição “The Depression and Bipolar Support Alliance4

 O que você PODE falar para ajudar O que você deve EVITAR falar
·         Você não está sozinho nisso. Estou aqui para te ajudar.

·         Talvez eu não entenda exatamente o que você está sentindo, mas estou aqui porque me importo e quero te ajudar no que for preciso.

·         Me diga o que eu posso fazer para te ajudar.

·         Você é importante para mim. Sua vida importa para mim.

·         Quando quiser desistir, diga a si mesmo que você vai resistir por mais um dia, ou mais uma hora, ou mais um minuto – o quanto você achar que consegue

·         Você pode não acreditar agora, mas o que você está sentindo agora vai mudar.

·         Não se preocupe tanto, você vai ficar bem.

·         Todo mundo passa por essas coisas de vez em quando.

·         O que você quer que eu faça? Eu não posso mudar as coisas para você!

·         Você tem tanta coisa para viver. Por que você quer morrer?

·         Pense positivo!

·         Saia dessa logo! É tudo coisa da sua cabeça.

 

Além de se oferecer para ouvir e compreender a situação da pessoa, você também pode ajuda-la a realizar atividades que podem ser prazerosas, como ver filmes leves, sair para andar um pouco ou passear, cozinhar alguma coisa, jogar algum jogo, mas sempre respeitando o ritmo da pessoa e o quanto ela dá conta de fazer. O importante a se pensar aqui é: esteja presente, acolha e não julgue.

  • Buscando tratamento

Para além da oferta de apoio, é importante que você encoraje a pessoa querida a buscar tratamento. Estabelecer uma rede de apoio de amigos e familiares é essencial, mas a depressão é uma doença séria e requer intervenções especializadas. Neste caso, tipicamente duas linhas de intervenção podem ser tomadas: o tratamento farmacológico e a psicoterapia. É possível que apenas uma seja selecionada, ou que haja a combinação das duas. Os profissionais capacitados para atender a essa demanda são médicos psiquiatras e psicólogos.

 

A depressão é uma condição séria de saúde, e a oferta de ajuda por parte de amigos e familiares pode ser essencial para que aqueles que sofrem com o problema sejam capazes de buscar tratamentos adequados.

REFERÊNCIAS

  1. World Health Organization. (2017). Depression and other common mental disorders: global health estimates.
  2. American Psychiatric Association. (2014). DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora.
  3. Smith, M., Barston,s., Segal,J.(2018, February). Helping Someone with Depression. Retrieved from: https://www.helpguide.org/articles/depression/helping-someone-with-depression.htm
  4. Depression and Bipolar Support Alliance (2016). Helping Someone with a Mood Disorder. Retrieved from: https://secure2.convio.net/dabsa/site/SPageServer/?NONCE_TOKEN=F0DF8170E761655360FB790DD11FD8CA&pagename=help_friends_family

 

 

Isabela Sallum

Psicóloga e mestre em Medicina Molecular

Integrante do Instituto Lumina Neurociências Aplicadas à Saúde Mental