Katia Rubio é autora de Esporte, educação e valores Olímpicos, livro da Casa do Psicólogo direcionado ao público adolescente, onde apresenta o espírito olímpico como proposta de vida. “Penetrar no imaginário esportivo contemporâneo é buscar compreender  por onde passa o parâmetro de projeção e de criação de identidade de  uma parcela de adolescentes e jovens adultos na sociedade  contemporânea”, escreve sobre uma das propostas de sua obra.

SOBRE A ENTREVISTADA

A jornalista, mestre em Educação Física, Doutora em Educação, Pós-doutora em Psicologia Social, inaugurou recentemente seu próprio blog, http://blog.cev.org.br/katiarubio

O blog foi criado após um desacordo com o COB – Comitê Olímpico Brasileiro, que exigiu a retirada de circulação do Livro – “Esporte, educação e valores olímpicos”. O diário trás também discussões para psicologia e estudos olímpicos. Para ela, o blog é “o legado de toda essa situação que me deixou um  espaço aberto de discussão, indagação, questionamentos, acolhimentos  de perplexidades e, por que não, de manifestação de desejos”.

Katia Rubio fala à Casa do Psicólogo sobre seu livro, seu blog e, principalmente, olimpismo.

Casa do Psicólogo – Você passou por uma polêmica legal em relação ao uso de símbolos e termos olímpicos em seu livro. Numa postagem de seu blog, você cita exemplos de pessoas que também sofreram essa perseguição, bem como  a solidariedade de alguns. Qual a situação do espírito olímpico  hoje  em dia, considerando essa sorte de acontecimento?

Rubio – Desde que os Jogos Olímpicos foram “profissionalizados” muito se  perdeu daquilo que seu fundador Pierre de Coubertin entendia do  objetivo desse Movimento. O Olimpismo era visto não como um negócio, mas como uma filosofia de  vida. Imaginava o esporte como uma via para a busca da paz, do entendimento entre os povos e uma forma pedagógica por excelência.

O Princípio n° 3 da carta Olímpica prega “Colocar em toda parte o esporte a serviço do desenvolvimento  harmonioso do homem, na perspectiva de encorajar o estabelecimento de  uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade  humana. Neste sentido, o Movimento Olímpico se engaja em cooperação com  outras organizações e dentro do limite dos seus meios, em ações para promover a paz. Em um episódio como o meu me pergunto se os preceitos básicos do olimpismo estão sendo seguidos.

Casa do Psicólogo – Em 2016, o Brasil será pela primeira vez sede das Olimpíadas. Quais os benefícios disso para o brasileiro e para o esportista  brasileiro, em sua opinião como psicóloga atuando na área de esportes?

Rubio – Entendo que os Jogos Olímpicos no Brasil podem ser uma ótima oportunidade do povo brasileiro desenvolver e exercitar cidadania. Isso  porque ninguém melhor que a população da cidade e do país para dizer o que necessitamos tanto em termos de instalações como de políticas públicas para um projeto de longo termos para o desenvolvimento do  esporte no país. É preciso ir para
os fóruns onde isso está sendo debatido e decidido para intervir e não apenas aceitar o que muitos, que estão distantes da realidade, pensam e desejam para o esporte no  país.

Casa do Psicólogo – O livro cita o olimpismo como “proposta de vida”. O quanto a psicologia pode se valer do espírito olímpico, considerando seu papel na própria vida de indivíduos?

Rubio – No princípio 2 da carta Olímpica, escrito por Pierre de Coubertin, diz “O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina em equilíbrio as qualidades do corpo, espírito e mente, combinando esporte com  cultura e educação. O Olimpismo visa criar um estilo de vida baseado no prazer encontrado no esforço, no valor educacional do bom exemplo e no respeito aos princípios éticos fundamentais universais. Esse é um dos ideais de correntes psicológicas que superaram a dicotomia mente-corpo, ou  seja, o Olimpismo e a Psicologia caminham  juntos.

Casa do Psicólogo – O livro é direcionado ao público jovem e as olimpíadas costumam  aparecer eventualmente direcionadas a este público, em escolas que realizam suas próprias “olimpíadas internas” ou até mesmo em campos  didáticos, como nos níveis de ensino mais básicos. No mesmo sentido   da pergunta acima, por que as Olimpíadas possuem este apelo a tal público?

Rubio – O esporte, e os Jogos Olímpicos por excelência, tocam em um mito muito caro a todos nós que é o mito do herói. O mito do herói é o mais comum e mais antigo do mundo, reconhecido na  mitologia clássica da Grécia e Roma, na Idade Média, no Extremo  Oriente e entre diversas tribos contemporâneas. Tem um poder de  sedução dramática flagrante e, apesar de menos aparente, uma importância psicológica profunda. É um mito que apresenta uma grande variedade de detalhes, mas se examinado minuciosamente apresenta  inúmeras semelhanças na estrutura.

E dentre os vários fenômenos que a sociedade moderna tem produzido  para a emergência de atitudes heróicas, o esporte tem ocupado um dos  lugares mais destacados. O esporte contemporâneo, no seu processo de construção, sofreu influência das transformações sócio-culturais e absorveu uma série de
características da sociedade industrial moderna.

Em função disso, características como secularização, igualdade de  chances, especialização, racionalização, burocratização, quantificação e busca de recorde, princípios que regem a sociedade capitalista  pós-industrial, marcam indelevelmente a prática esportiva, tendo o rendimento como o princípio norteador.

Diferentemente do atleta da Antigüidade, que tinha sua preparação  física e atlética como um elemento da sua educação e da sua formação  enquanto cidadão, cujos desdobramentos eram a preparação para a guerra  e a proteção da pólis, associando os papéis de esportista e guardião,  o atleta de alto rendimento na atualidade tem sua imagem vinculada ao espetáculo e ao lazer.
Seus feitos são capazes de levar multidões a  estádios e ginásios, em momentos de espetáculo, ou causar dor e  comoção coletiva em caso de acidente ou morte.

Penetrar no imaginário esportivo contemporâneo é buscar compreender  por onde passa o parâmetro de projeção e de criação de identidade de  uma parcela de adolescentes e jovens adultos na sociedade  contemporânea. Isso porque os feitos esportivos não estão apenas  relacionados à apresentação de comportamentos, mas também ao  preenchimento de um vácuo de feitos de destaque.

Casa do Psicólogo – Fale sobre o seu blog. Como psicóloga e acadêmica, quais as vantagens que considera para utilizar esta ferramenta? Qual a situação dos canais de informação para psicólogos do esporte?

Rubio – O blog nasceu por causa de uma demanda específica: a acão que o COB  moveu contra mim por causa do livro Esporte, educação e valores  olímpicos e pela necessidade de socialização de todas as informações  que essa situação desencadeou. Recebi muitos apoios de pessoas e instituições brasileiras.

Entendo o blog como o legado de toda essa situação que me deixou um  espaço aberto de discussão, indagação, questionamentos, acolhimentos  de perplexidades e, por que não, de manifestação de desejos. Embora eu não tenha familiaridade com os meios eletrônicos o blog está  me forçando e me
ensinando a navegar nesse mar de informações que as  redes permitem.

Dentro da universidade há muito que se referem às pessoas que fazem  uso desse canal  de forma pejorativa, mas para mim isso não tem  qualquer importância.

Durante anos convivi com a alcunha de “eclética” porque não utilizava apenas e tão somente uma única linha teórica como meu referencial  clínico na Psicologia do Esporte e o tempo mostrou quem tinha razão.

Depois de tudo penso que além do título de professora doutora posso  também ser chamada de psicóloga do esporte e blogueira.