famaO livro intitulado “Fama: um olhar psicanalítico sobre a busca incessante pelos holofotes” objetivou buscar uma aproximação do fenômeno fama a partir de um estudo psicanalíticos, além de utilizar de entrevistas com indivíduos que explicitamente desejam e buscam a fama pela fama, ou seja, como forma de visibilidade, destaque e admiração social. Foram identificados os conteúdos significativos de suas falas e relacionados com a teoria psicanalítica. Dentre os sujeitos, dois são atores e modelos, dois são modelos,  um é músico e dois se inscreveram  para o programa Big Brother Brasil.

Uma das coisas que me instigaram a pesquisar o desejo de fama é a grande atenção dispensada às pessoas famosas, que chegam a inúmeras capas de revistas e programas televisivos e são alvo de paparazzi. E isso ocorre justamente porque as pessoas valorizam e se interessam por aqueles que são famosos, independentemente do como chegaram lá.

Além disso, há uma incoerência, que eu acho muito interessante, entre aqueles que são famosos sem esforço, talento ou empenho profissional e aqueles que não o são, mesmo tendo contribuído muito para a sociedade, como inventores ou cientistas.

Outra coisa que me chama a atenção é o esforço das pessoas para “aparecer”, como nos diversos reality shows, programas de TV ou mesmo na Internet, no Facebook ou blogs. O Facebook, por exemplo, é freqüentemente utilizado como ferramenta de superexposição. A descrição do perfil pessoal e as fotos mostradas exprimem uma exaltação pessoal. Muitas vezes, descreve-se e expõe-se em fotos uma imagem idealizada, reproduzindo comportamentos de celebridades. Os blogs, para muitas pessoas, servem simplesmente como um meio de falar de si próprio, comunicar suas experiências, abrir sua vida íntima e divulgar-se. Seu fim parece ser a busca de alguma visibilidade social e certo grau de exposição de sucesso pessoal. Vários dos sujeitos por mim entrevistados assumem que se utilizam desses meios como forma de marketing pessoal, manipulando os dados, que muitas vezes são inventados para atrair a atenção do público internauta.

Mas, pensando a respeito, pessoalmente, percebo como é difícil ser ou sentir-se valorizado sendo um simples anônimo e, ao meu ver, esse é o sentimento de muitos na sociedade atual, onde só é apreciado aquele que aparece, que está em evidência. É aquela idéia: “Tudo o que é bom aparece”, expressada por muitos dos meus entrevistados. Assim, no oposto, se não aparece é porque não é bom.

Quando falamos de fama, falamos de questões que envolvem o narcisismo de todo ser humano. De um certo modo, todos nós queremos e necessitamos de reconhecimento. É pelo olhar de reconhecimento do outro que formamos nossa auto-estima, mas aqui estamos falando de algo diferente. A fama, do modo é buscada hoje, diz respeito a uma necessidade de ser admirado por um número muito grande de pessoas, quando o que deveria importar é ser valorizado pelas pessoas de convívio mais próximo, aquelas que realmente nos conhecem. Além disso, quem busca essa fama não quer só ser admirado, quer também ser invejado, como dizem os sujeitos entrevistados, o que implica necessariamente um desejo de sobrepor-se ao outro, de causar nele alguma emoção nem sempre positiva.

Assim, o desejo de fama é um desejo narcísico de ser absoluto para o outro, ser único, o melhor. Nessa dinâmica só há lugar para um, consequentemente, o outro é apenas um objeto de sustentação desse indivíduo. E hoje, a possibilidade de realizar esse desejo narcísico é dada virtualmente a todos, os conhecidos “quinze minutos de fama”. Esse exagero é que não pode ser considerado saudável.

Há inegavelmente um deslumbramento com as celebridades. Aonde chegam prendem a atenção de todos, e isso já lhes confere um poder enorme. Num outro nível, estar na mídia é tornar-se um semideus, é encarnar o ideal, é ser admirado por todos. Eu diria que realmente a fama dá esse poder, que é o poder de nem precisar perguntar “Você sabe com quem está falando?” Isso faz algumas celebridades pensarem que tudo podem, diferentemente dos anônimos, com base naquela crença: hoje em dia o que é bom é o que aparece. È claro que esse é um pensamento equivocado, principalmente numa época em que vale tudo para aparecer, mas não podemos negar que esse pensamento impera na sociedade de hoje.

Mas mesmo sendo assim, dando de fato algum poder a algumas pessoas, ainda há muita idealização da fama. Ela ganha superpoderes na fantasia. No discurso dos participantes da pesquisa, a fama aparece como algo totalmente idealizado. Eles imaginam que sendo famosos serão tratados com atenção especial, poderão freqüentar restaurantes sem pagar, trabalhar quando quiser, fazer o que e quando quiser, burlar a lei e ainda assim serem excepcionalmente admirados e desejados. Claro, é isso o que vemos alguns famosos fazendo… Essa imagem ideal seduz os que pertencem ao anonimato e os faz desejar estar nesse lugar onde teriam a onipotência do narcisismo absoluto. E essa sedução não é apenas pelo desejo de ser famoso: a fama vende porque mexe com o narcisismo das pessoas, estimula esse lado. O público das campanhas publicitárias é estimulado a agir quase como um “minifamoso” no seu mundinho particular, a ter a liberdade e o poder de atração que imagina nas celebridades. Nesse sentido, o ideal narcísico da fama age em todos nós, inconscientemente, enquanto público de campanhas publicitárias. Daí se percebe que fama, anúncios, revistas, negócios e fofocas andam juntos. Ao mercado interessa que haja celebridades. Num outro nível, o desejo de fama é um desejo de diferenciar-se e fugir à insignificância atrelada ao anonimato.

(Andrea Cristiane Vaz, autora).