O livro tem como origem a tese de doutorado defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo- Puc/SP  com o título Tortura: testemunhos de um crime demasiadamente humano.

A proposta principal é demonstrar como a tortura lesa a humanidade ao se manter como prática.  Cabe aos humanos indignarem-se partindo do princípio de que a tortura supõe três vértices:  o torturado, o torturador e a sociedade que a permite. A convicção da autora é que a publicação de  testemunhos  sobre a prática da tortura, bem como referências históricas e contemporâneas sobre a devastação provocada pela prática, possam sensibilizar o leitor para  assumir sua parte na dissolução desta sustentação.

A construção do texto recorre ao pensamento de Sigmund Freud convidado pelo físico Albert Einstein em 1932, então representante do Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual da Liga das Nações, a explicar por que os homens promovem guerras, destroem-se mutuamente e calcinam o patrimônio cultural que eles mesmos construíram. As contribuições da teoria freudiana evidenciam que o impulso para destruir é inerente à condição humana e que o trânsito pela vida supõe uma batalha de morte entre ódio e amor. A diferença entre todos os que estamos na mesma cena é que a escolha do campo de filiação a uma ou outra vertente faz a diferença entre o assassino e a vítima. Faz a diferença entre o torturador que escolheu torturar e os que consideram  a tortura como um crime sem prescrição no tempo e sem perdão em quaisquer circunstâncias.

A prática da tortura é um campo retroalimentado  pela impunidade com a premiação aos que torturam e  com a indiferença em relação à sua prática. No Brasil a tortura como política de Estado durante a ditadura civil -militar e a ocultação da morte conseguiu o pior: matar a morte. Queiramos ou não andamos sob um solo movediço onde a viscosidade das práticas de ódio permanecem silenciadas. Corpos assassinados continuam desaparecidos. Temos uma saída possível ao tentar fazer com que vivamos um tempo onde a reciprocidade das relações prevaleça sobre a destruição mútua  antes que sejamos atingidos por veículos aéreos não tripulados. Continua vigente a afirmação freudiana de que a cultura é esse processo a que devemos o melhor daquilo em que nos tornamos bem como boa parte daquilo de que padecemos. O mal-estar prevalece ainda.

A autora, Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, mais conhecida como Dodora, é membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae (São Paulo).     Foi diretora desse mesmo Instituto entre 2001 e 2007 e professora do Curso de Psicossomática entre 1994 e 2007. Nos anos de 2009 e 2010 foi Coordenadora Geral de Combate à Tortura da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. É doutora pela PUC-SP e autora dos livros Pacto re-velado: psicanálise e clandestinidade política (Escuta, 1994) e Estresse (Casa do Psicólogo, 2002).