Por Vivian de Medeiros Lago
Denise Ruschel Bandeira
Gisele Ap. da Silva Alves

O Sistema de Avaliação do Relacionamento Parental (SARP) é um método de avaliação da qualidade do relacionamento entre pais e filhos, cujo embasamento teórico advém da abordagem sistêmica estrutural. Foi construído considerando a carência de métodos de avaliação delineados para a área forense no Brasil, e a diversidade de procedimentos não estruturados utilizados pelos profissionais da área. O método foi desenvolvido como pesquisa de doutorado da psicóloga Vivian de Medeiros Lago, sob orientação da Profa. Dra. Denise Ruschel Bandeira, integrando o Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Uma rigorosa metodologia foi utilizada para construir o referido sistema, envolvendo estudos teóricos e empíricos acerca do relacionamento parental. Embora tenha sido delineado especialmente para o contexto de disputa de guarda e/ou regulamentação de visitas, é possível que seja aplicado em outros casos que o profissional julgar pertinente, inclusive no contexto clínico.

O SARP é composto por três técnicas: uma entrevista semiestruturada para ser aplicada aos responsáveis pela criança (individualmente), um protocolo de avaliação infantil intitulado “Meu Amigo de Papel” (para crianças de 5 a 12 anos) e uma escala para ser pontuada pelo próprio examinador. Além dessas, outras técnicas podem ser utilizadas (como observação da interação pais-filhos e visitas domiciliares) a fim de reunir informações mais completas e fidedignas para a pontuação da escala. O kit do SARP inclui, ainda, um roteiro de anamnese, oferecido como sugestão aos profissionais, os quais também podem utilizar-se de outros roteiros tradicionais da entrevista de anamnese.

É importante ressaltar que as características do SARP não se enquadram na definição de um teste psicológico padronizado, que é definido na Resolução CFP N.º 002/2003 como procedimento sistemático de observação e registro de amostras de comportamentos e respostas de indivíduos com o objetivo de descrever e/ou mensurar diversas características e processos psicológicos. O SARP, no entanto, diferente do que define um teste psicológico, trata-se de uma metodologia de avaliação composta por diferentes técnicas, cujo resultado está diretamente vinculado à formação teórica e à experiência do profissional avaliador. Em consequência de suas características, o SARP não será submetido à avaliação do SATEPSI (Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos) do Conselho Federal de Psicologia e, portanto, não é de uso exclusivo do psicólogo. Considerando que as avaliações na área de família muitas vezes iniciam-se pela investigação do contexto social da família e, levando em conta também que uma assistente social participou de um dos estudos de validação do SARP, a metodologia proposta revela-se passível de uso também por assistentes sociais, por exemplo. Válido apontar que, seja quando utilizado no contexto clínico, ou no contexto forense, não há impedimentos nem qualquer tipo de falha ética por parte dos profissionais que utilizarem o SARP, devendo inclusive ser citada sua referência nos documentos oriundos das avaliações que o utilizarem.

O SARP dispõe de flexibilidade em sua aplicação, por meio da possibilidade de adaptação e/ou supressão de algumas questões da entrevista e/ou itens da escala, o que viabiliza a utilização do método em outros contextos que não exclusivamente o de disputa de guarda. Na área jurídica, serve a uma gama de situações em que seja necessário subsidiar o Judiciário com informações acerca do relacionamento entre responsáveis e filhos (adoção, guarda compartilhada, regulamentação de visitas, alienação parental). Na área clínica, sempre que o avaliador julgar importante uma análise mais completa e estruturada da qualidade da relação entre pais (ou outros responsáveis próximos) e filhos, o SARP também contribuirá significativamente.

Um dos pontos fortes do SARP é a possibilidade de sistematização das informações obtidas durante a avaliação do relacionamento parental. Isso auxilia a coleta das informações necessárias e facilita a comunicação dos resultados ao juiz ou a outro profissional de interesse. Nesse sentido, é um instrumento interessante para profissionais que estão iniciando na carreira, uma vez que guia o profissional examinador a levantar informações essenciais no processo de investigação.

O SARP tem sido utilizado em pesquisas de alunos de cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia. Alguns trabalhos de conclusão de curso evidenciaram que o SARP pode ser utilizado não apenas em situações de disputa de guarda, mas também para avaliação de suspeita de alienação parental e avaliação de vínculo após retomada de contato entre filhos e pais. Em um desses estudos, o poder familiar havia sido suspenso por um ano e alguns dos filhos avaliados possuíam idade superior a 12 anos (faixa etária máxima prevista para o Meu Amigo de Papel). Neste caso, a pesquisadora fez uma adaptação das questões da Entrevista SARP utilizada para os genitores, ajustando as perguntas para obter as mesmas informações por meio dos filhos adolescentes, o que é perfeitamente possível.

Outra observação importante de ser apontada diz respeito ao número de encontros necessários para a aplicação do SARP. Em média, quatro encontros são suficientes para contemplar a aplicação da entrevista de anamnese, a Entrevista SARP (um encontro com cada responsável) e a aplicação do Meu Amigo de Papel. Posteriormente, o avaliador necessitaria dispensar um tempo para analisar as informações coletadas e pontuar a Escala SARP. Considerando especialmente a realidade do contexto das avaliações forenses, o SARP revela-se bastante adequado, visto que um número reduzido de encontros com as partes envolvidas permite reunir informações pertinentes para subsidiar os laudos periciais.

Portanto, o SARP configura-se em um conjunto de técnicas que oferece uma metodologia de investigação da qualidade do relacionamento parental aos profissionais da área forense e demais áreas em que essa avaliação seja necessária. Por não se enquadrar na definição de teste psicológico do Conselho Federal de Psicologia, os recursos do SARP podem beneficiar outros profissionais além do psicólogo, como, por exemplo, assistentes sociais. Por oferecer um método estruturado de avaliação, o instrumento é especialmente indicado para profissionais que estão iniciando na carreira. Sendo assim, trata-se de uma ferramenta com possibilidades ampliadas de uso, devido à flexibilidade de sua aplicação, e que apresenta como principais vantagens a uniformidade nos procedimentos avaliativos e a facilidade de comunicação, principalmente no contexto legal.

Para ter o seu, acesse: http://goo.gl/XHFnJa