O final do ano se aproxima, e nesse período geralmente fazemos uma retrospectiva dos nossos planos e conquistas do ano atual, bem como o estabelecimento de metas para o seguinte. Curiosamente, percebemos que boa parte daquilo que nos propusemos a fazer não deu em nada, ao mesmo tempo em que acumulamos uma série de conquistas que não estavam nos planos originais. Ainda assim, mesmo diante dessa conclusão, ano após ano estabelecemos novas metas que julgamos precisar cumprir, ignorando que no próximo mês de dezembro seremos assolados pelo mesmo resultado: muitas coisas não foram concluídas, muitas coisas feitas não foram listadas.

Assim, o objetivo desse texto é apresentar a vocês uma explicação do porque este fenômeno ocorre, bem como propor algumas dicas simples e práticas que todos podemos aplicar agora, para que ao fim de 2017 cheguemos a uma conclusão diferente, ou seja, ainda que – inevitavelmente – novas metas surjam pelo meio do caminho, a maioria daquelas definidas agora serão cumpridas com sucesso. É muito comum que as pessoas utilizem datas do calendário como marcas pessoais. Fazemos isso principalmente com o dia do nosso aniversário, e o Réveillon. Isso porque é como se nessas datas emblemáticas fizéssemos uma diferenciação entre a nossa versão do passado e a nossa probabilidade futura, e ai acabamos nos sentindo mais motivados a estabelecer metas para que nossa versão do futuro seja melhor.

Mas cuidado! Como tudo na vida, é preciso saber utilizar essa motivação natural com sabedoria. Isso porque, de acordo com Amy Cuddy, psicóloga social e professora da Harvard Business School, o estabelecimento dessas metas pode, em algumas situações, se revelar como uma armadilha para nossa própria evolução pessoal/profissional. Afinal, algumas pessoas acabam estabelecendo metas que são complexas e/ou difíceis demais para serem atingidas, e daí, durante o ano, conforme vão percebendo que não estão conseguindo atingi-las – justamente por serem muito difíceis – acabam se frustrando, e essa frustração prejudica profundamente a motivação para continuar fiel àquela lista estabelecida no início. É basicamente uma explicação científica para o dito popular: “Quem muito quer, pouco tem”.

Isso significa que metas ambiciosas demais podem resultar em fracasso e desmotivação. Por isso, a dica principal é a seguinte: aproveite com sabedoria a motivação dessa época, estabelecendo objetivos personalizados, que estejam dentro da sua real capacidade de realização, para que você consiga – de fato – persegui-los até o fim. Não tente “dar um passo maior do que a perna”, e as coisas tenderão a dar certo.

Além disso, é importante que boa parte dos itens da sua “realização de fim de ano” produzam resultados observáveis em curto período de tempo, por isso, evite traçar metas muito abstratas/subjetivas que sejam difíceis de avaliar o resultado. Dessa forma, quando você começar a perceber que está tendo sucesso, ainda que eles sejam parciais, manterá sua motivação mais intensa por mais tempo. Um detalhe que poderá fazer toda a diferença nesse caso é dividir uma meta maior em várias metas pequenas, que seriam como passos para chegar ao objetivo final. Esse tipo de desmembramento facilita tanto a sua noção de “percurso” (para não se perder lá pelas tantas), quanto estimula a continuar percorrendo o caminho.

Mas um detalhe é importante deixar claro: não enxergue esse planejamento de fim de ano de uma maneira rígida. Lembre-se que ninguém é capaz de prever o futuro, ou seja, ao longo dos 12 meses seguintes podem surgir novas demandas, muitas vezes ainda mais urgentes, e você precisa sabiamente encaixá-la nos planos em regime preferencial, para concluí-la a tempo, sem que isso – contudo – prejudique os demais objetivos.

Concluindo, preze pela simplicidade e objetividade das suas metas para o novo ano, e respeite o seu próprio ritmo e o curso natural da sua vida, para que em dezembro de 2017 você conclua que fez o melhor que pôde, e faça então uma retrospectiva positiva das suas conquistas do ano. Bom 2017!

Texto escrito por:

Thales Vianna Coutinho
Psicólogo, mestrando em Biologia Moleular
Ilumina Neurociências

Referências:
Dai, H., Milkman, K. L., & Riis, J. (2013). The Fresh Start Effect: Temporal Landmarks Motivate Aspirational Behavior. The Wharton School Research Paper, 51.
Peetz, J., & Wilson, A. E. (2013). The post-birthday world: Consequences of temporal landmarks for temporal self-appraisal and motivation. Journal of personality and social psychology, 104(2), 249.
Wilson, A. E., Buehler, R., Lawford, H., Schmidt, C., & Yong, A. G. (2012). Basking in projected glory: The role of subjective temporal distance in future self‐appraisal. European Journal of Social Psychology, 42(3), 342-353.
Entrevista com Amy Cuddy: “Harvard Psychologist Explains The Major Reason New Year’s Resolutions Fail” Disponível em: http://www.huffingtonpost.com/2014/12/31/new-years-resolutions_n_6396324.html