Nós sempre procuramos, mesmo que de forma indireta, uma maneira de estimular a cognição das crianças. Hoje, muitas empresas do ramo transformam os seus produtos não mais em um brinquedo, mas sim em uma ferramenta de estimulação cognitiva disfarçada. Se funciona ou não, é questão para outra discussão. Mas é importante entender que, como população, acordamos para a importância da estimulação cognitiva precoce.

Podemos pensar nesta estimulação em duas grandes categorias: uma estimulação ampla, visando integrar diversos componentes cognitivos, ou então uma estimulação focada em um único componente. Cada método possui suas peculiaridades: enquanto o amplo pode trazer benefícios gerais, é difícil investigar até que ponto o ganho é proveniente do que foi feito ou mero fruto do desenvolvimento da criança, e a estimulação focada pode trazer benefícios isolados, porém precisos.

Desta forma, se formos trabalhar com uma estimulação focada, precisamos escolher muito bem qual será o nosso foco. A memória operacional tem sido um alvo terapêutico muito visado, uma vez que sua avaliação pode ser realizada de forma relativamente simples, enquanto os benefícios na vida diária são evidentes. Por exemplo, a memória operacional é um fator preditivo de sucesso acadêmico significativamente maior que o QI (inteligência) quanto menor for a idade da criança (Alloway, 2010).

A memória operacional é uma Função Executiva que nos dá a capacidade de utilizar informações disponíveis em nossa memória de curto prazo e manipulá-las. Quando uma criança faz um cálculo matemático ela está manipulando diversas informações em mente (ex.: para subtrair eu tenho de adicionar um dez neste número para depois calcular). Uma das grandes características da memória operacional é sua capacidade limitada. Se ela está sobrecarregada, cometemos diversos erros como por exemplo perder o foco atencional, a linha de raciocínio, ou até mesmo esquecer o que estava realizando. Por exemplo, uma criança com dificuldades em memória operacional pode levar muito tempo para copiar algo do quadro pois ela não consegue guardar muito do conteúdo em mente e passar para o caderno, tendo de ir palavra por palavra, enquanto o colega ao lado pode ler a frase inteira e já copiá-la.

Isso acaba por ajudar a explicar o porquê a memória operacional tem sido tão investigada como alvo de intervenção, principalmente em países subdesenvolvidos. A estimulação cognitiva possui efeitos diminutivos para quão melhor você for em determinada habilidade. Se uma criança apresenta uma memória operacional muito boa, a estimulação poderá ter efeitos significativos, porém pequenos sobre sua cognição geral. Agora, se a memória operacional está comprometida, esta estimulação tem potencial de modificar drasticamente a qualidade de vida destas crianças (Nores, 2010).

Porém, é importante compreender que esta estimulação terá pouco efeito se outras condições ainda forem desfavoráveis, como por exemplo a desnutrição, qualidade de ensino ou condições familiares adversas (Burger, 2010).

Estes efeitos são –geralmente- mantidos à longo prazo. Do ponto de vista educacional, quanto mais cedo for iniciado melhor, pois, dessa forma, a criança não passará os anos seguintes da série escolar com dificuldade, tendo um baixo aproveitamento e evitando o “efeito bola de neve” que ocorre na matemática. Por exemplo, se eu não aprendi a somar corretamente, terei dificuldades na hora de aprender a multiplicar, o que vai me levar a ter dificuldades em fazer operações de segundo grau no futuro, e assim por diante.

Assim, pensar em estratégias de estimulação precoce pode auxiliar no desenvolvimento infantil  com melhores desfechos inclusive no desempenho escolar. Além disso, se há uma criança com dificuldades de memória operacional na escola, procure um profissional que trabalhe com estimulação cognitiva o mais cedo possível!

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Alloway, T. P., & Alloway, R. G. (2010). Investigating the predictive roles of working memory and IQ in academic attainment. Journal of experimental child psychology, 106(1), 20-29. , Burger, K. (2010). How does early childhood care and education affect cognitive development? An international review of the effects of early interventions for children from different social backgrounds. Early childhood research quarterly, 25(2), 140-165. Nores, M., & Barnett, W. S. (2010). Benefits of early childhood interventions across the world:(Under) Investing in the very young. Economics of education review, 29(2), 271-282.