Há algum tempo uma psicóloga me procurou querendo uma supervisão de um caso que ela começaria a atender na terapia. Era um caso bem interessante, mas também muito difícil à primeira vista. Se tratava de uma criança com suspeita de transtorno do neurodesenvolvimento. A criança tinha 10 anos, estava com dificuldade em acompanhar a turma, era agitada, muito ingênua e tinha dificuldades na vida diária, um perfil bem característico de alguns quadros de transtorno do neurodesenvolvimento. Ela me procurou, pois não sabia o que fazer na terapia, e você, saberia o que fazer? Conseguiria identificar pelo menos por onde começar?

Na terapia trabalhamos com pessoas que passam por dificuldades no enfrentamento de adversidades ou que estão passando por algum tipo de sofrimento psicológico, não é mesmo? Pois bem, na primeira sessão com os pais, quando eles estão te contando a demanda da terapia, você se pergunta o que pode estar causando essas dificuldades? Espero que sim, pois esse é um passo fundamental para desenvolver intervenções adequadas à demanda da criança. Mas por que é tão importante se fazer essa pergunta? Porque nem sempre a criança chega com algum diagnóstico, mas a chance de ela ter alguma coisa é grande, simplesmente porque nosso foco de trabalho corresponde aos principais sintomas associados aos transtornos do neuresenvolvimento: baixa autoestima, agressividade, problemas de comportamento, bulying entre outros. Não significa que toda criança com demanda para terapia tem algum transtorno, mas sim que a probabilidade é alta.

Tudo bem, pode até ser que a chance de uma criança ter algum transtorno seja alta, mas o que isso muda na minha prática clínica? Muda tudo!! Nos transtornos do neurodesenvolvimento se tem alterações no processamento de informação mental, ou seja, o cérebro da criança não funciona como o das outras, existem déficits inerentes que não podem ser restituídos, apenas compensados. Em outras palavras, não adianta dar murro em ponta de faca, isso não vai funcionar. Você vai precisar pensar em vias alternativas para trabalhar as demandas da criança. Pense, como você iria lidar com uma criança com deficiência intelectual? Seria possível desenvolver o insight, a autocrítica ou a generalização nesse caso? E aqueles adolescentes com problemas de insight social, típico de pessoas com autismo leve que nunca foram diagnosticados, você acha que conseguiria usar as mesmas ferramentas utilizadas com outrem? E aquela criança mais agitada que não para na cadeira, o que você faria?

Estou falando o tempo inteiro de transtornos do neurodesenvolvimento, mas você sabe quais são eles?

Se você não se lembra muito bem, vou te falar alguns: Deficiência intelectual, TDAH, Transtorno do Espectro Autista, Dislexia e Discalculia.

Agora podemos retomar nossa conversa. O primeiro passo para iniciar uma terapia com criança é descobrir se ela tem algum transtorno. As vezes na primeira sessão isso já será respondido, pois os pais te mostrarão um laudo. Outras vezes, ela não chega com laudo, mas pelas descrições dos problemas e das características, você ficará com a pulga atrás da orelha. Ainda tem outras possibilidades, você pode não ter notado nada pela conversa com os pais, mas durante as sessões com a criança você começa a perceber que tem algo estranho. Veja que duas das possibilidades dependem do seu feeling clínico. Sabe como você desenvolve isso?  Conhecimento + experiência. A experiência é só com o tempo e o conhecimento depende só de você.

Para passar na sua cabeça a possibilidade de a criança ter algum transtorno, você, primeiro, precisa saber da existência deles. O que são, como se desenvolvem, quais são as características, quais problemas estão associados, etc.  Então a chave para isso é FORMAÇÃO.  Se você consegue perceber que tem algo diferente, o segundo passo é ter o perfil neuropsicológico da criança. Muitas vezes você vai precisar disso para conseguir traçar o programa terapêutico. A terapia é uma intervenção ecológica, as demandas são trabalhadas de forma adaptada ao perfil do paciente. Com tudo isso, chegamos ao terceiro passo e mais importante: tendo clareza das dificuldades e potencialidades da criança, traçamos um programa terapêutico fundamentado em evidências científicas. Nós trabalhamos com saúde mental e não podemos basear nossa prática em puro achismo. As crianças com transtornos do neurodesenvolvimento exigem práticas terapêutica específicas e precisamos garantir a sua eficácia.

Lembre-se que a terapia é uma constante avaliação e esse raciocínio pode ser desenvolvido durante toda a terapia.

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Texto escrito por:

Andressa M. Antunes

Psicóloga

Mestre e doutoranda em Saúde da Criança e do Adolescente (UFMG)

Membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp)

Membro do Instituto Lumina