O desempenho escolar é uma medida utilizada para acompanhar e avaliar o nível aprendizagem da criança podendo identificar, inclusive, dificuldades do aluno. Todavia sabemos que esta é uma medida inespecífica no sentido que não identifica o motivo da dificuldade. Uma boa aprendizagem escolar se associa as práticas pedagógicas eficientes, mas também a características individuais das crianças.

Quando nos referimos a características das crianças estamos considerando suas habilidades cognitivas, ou seja, suas habilidades mentais. Memória, linguagem, atenção são habilidades cognitivas recorrentemente associadas a aprendizagem escolar, entretanto poucas pessoas sabem como a cognição social também interfere no grau de desenvolvimento escolar dos alunos.

Entendemos como cognição social os processos mentais pelos quais compreendemos a nós mesmos, os outros e as situações sociais. De maneira mais ampla é a nossa capacidade de identificar, manipular e adequar o comportamento a partir de informações sociais percebidas e processadas em um contexto específico. A escola é um contexto específico que demanda da criança um entendimento, dentre outros, de linguagem não-verbal do professor (gestos, reconhecimento de características da face, prosódia) para uma boa aprendizagem. As habilidades de cognição social começam a se desenvolver ainda nos primeiros meses de vida, sendo a atenção compartilhada uma capacidade relevante para aprendizagem social. Atenção compartilhada é a nossa habilidade de voltar o olhar para um mesmo ponto/coisa que outra pessoa no que estamos interagindo está olhando. Pense como na escola a aprendizagem é potencializada a medida que a criança acompanha o olhar do professor enquanto ele fala.

Déficits de habilidades sociais podem ser decorrente de transtornos do neurodesenvolvimento tanto como um problema primário (Transtorno do Espectro Autista), quanto como secundário (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade). No segundo caso as dificuldades sociais são um desfecho secundário resultante dos déficits primários, neste caso a desatenção, impulsividade e hiperatividade. Por outro lado, menores habilidades sociais podem também se originar de baixa estimulação no contexto familiar, primeiramente e escolar. Isso significa que estratégias de estimulação/intervenção nos anos escolares iniciais se relacionam positivamente com o desempenho escolar.

Educadores, psicólogos, fonoaudiólogos e todos os profissionais que trabalham com crianças em idade escolar precisam estar atentados as habilidades de cognição social dos alunos, pois quanto antes estimuladas melhor o desenvolvimento infantil.

O caderno de intervenção do Programa Coruja especialista conta com diversas atividades que trabalham e promovem componentes da Cognição Social. Por ser um caderno de atividades, a ferramenta pode ser usada como estimulação, mas também como uma avaliação e monitoramento das habilidades crianças. O material é especialmente interessante para as crianças com dificuldades, mas pode ser usado com qualquer criança. Afinal todas as ferramentas que possam nos ajudar a pensar na educação de forma mais ampla e integrada será importante no desenvolvimento escolar das nossas crianças.

Annelise Júlio-Costa