Para além da definição clássica de “inteligência é a capacidade humana de solucionar problemas novos, a partir de informações previamente adquiridas ou disponíveis no ambiente”; considerando-a como índice clínico, a inteligência dá aos profissionais bem treinados a capacidade de investigar diversos aspectos da cognição de um indivíduo, e serve como uma base para guiar diferentes práticas: desde o primeiro momento da avaliação até quais intervenções são as mais indicadas para aquele caso específico.

Existem diversas ferramentas para se avaliar a inteligência, seja em crianças ou adultos. Porém, muitas vezes a avaliação acaba por não abarcar fatores importantes, focando-se somente num índice de quociente intelectual que – de fato – é uma medida confiável de inteligência. Porém, até que ponto esta medida é suficiente? Saber que uma pessoa tem boa capacidade intelectual é na verdade algo genérico e que pode não me guiar muito bem quanto as minhas decisões informadas.

Por exemplo, após a avaliação identifico que uma criança possui um QI de 82 (não vamos considerar o intervalo de confiança aqui por motivos didáticos). O que faço com essa informação? Será que tudo nesta criança está abaixo da média? Temos de criar um plano de estimulação para ela, por onde começamos? Será que essa inteligência geral tão baixa na verdade pode ter uma outra explicação?

São perguntas como essas que demonstração a importância de todas as informações os instrumentos podem nos fornecer. Por exemplo, o WISC-IV nos dá quatro índices que devem ser avaliados de forma aprofundada, são eles: Compreensão Verbal (CV), Organização Perceptual (OP), Velocidade de Processamento (VP) e Memória Operacional (OP), além de um índice de inteligência geral, logo na primeira página do protocolo de registro (aquela em que você faz os gráficos). Porém, muitas vezes as pessoas se esquecem de que a segunda página do protocolo, chamada de página de análise, nos traz informações valiosas para além dos escores.

Vamos supor que você está avaliando uma criança com dificuldade de aprendizagem na escola (vamos desconsiderar qualquer outro dado clínico, meramente a nível de exemplo). Os resultados do WISC-IV indicaram que os escores de VP, e OP estão dentro da média. Porém, de todos estes escores o de “memória operacional” e “compreensão verbal” foram os mais comprometidos. Podemos investigar se esta diferença é esperada na população através da “Comparação entre Discrepâncias”, na página de análise. Ao comparar cada um dos índices podemos identificar que de fato, neste caso exemplo, somente o índice de Memória Operacional está significativamente abaixo do esperado para alguém com o perfil cognitivo similar ao dessa criança. Isso levanta a hipótese de que talvez as dificuldades de aprendizagem podem estar mais relacionadas a uma dificuldade em armazenar e organizar informações mentalmente. Em outras palavras, o WISC-IV não se mostrou como somente um teste de inteligência, mas sim instrumento de avaliação neuropsicológica.

A partir daí temos uma nova linha de pensamento clínico que deve ser investigada com maior profundidade. Algo que poderia ter passado desapercebido sem uma análise avançada dos resultados do teste. Uma outra linha de raciocínio sobre o exemplo anterior, existem evidências de que a memória operacional se apresenta como um dos principais déficits de crianças com dislexia fonológica ao realizar o WISC-IV (Clercq-Quaegebeur, 2010). Ou seja: informações que muitas vezes fogem do essencial como o cálculo de discrepâncias e escore de processo podem ser cruciais para uma investigação clínica, levando o profissional a ter agora a possibilidade de trabalhar em duas hipóteses: déficit de memória operacional ou dislexia fonológica.

Claro que os exemplos aqui são meramente didáticos e baseados única e exclusivamente na análise dos resultados do instrumento. O diagnóstico e raciocínio clínico deve ser feito como um todo, considerando diversos outros fatores. Apesar disso, o que discutimos neste texto é uma de várias possibilidades das análises avançadas do WISC-IV. É importante compreender que os instrumentos de avaliação muitas vezes são mais ricos do que o simples resultado numérico dado por ele.

Escrito por:

Emanuel Henrique Gonçalves Querino

Psicólogo

Mestrando em Medicina Molecular

Diretor de Inovação
Ilumina Education

Referências:

De Clercq-Quaegebeur, M., Casalis, S., Lemaitre, M. P., Bourgois, B., Getto, M., & Vallée, L. (2010). Neuropsychological profile on the WISC-IV of French children with dyslexia. Journal of Learning Disabilities, 43(6), 563-574.