Não é segredo que o uso crônico do cigarro faz mal à saúde.
De fato, a formação e adoção de determinados comportamentos diários podem se relacionar a diversos desfechos em saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde, estima-se que as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), ligadas a comportamentos como tabagismo, inatividade física, alimentação não-saudável e uso nocivo de álcool, estejam associadas a 63% das mortes no mundo e a 74% da mortalidade no Brasil1.
Para além dos efeitos na saúde, os custos econômicos dos comportamentos não-saudáveis são proeminentes, tanto em nível individual quanto social. Ao considerarmos somente o efeito do cigarro, estima-se que sejam gastos 56,9 bilhões de reais por ano no Brasil devido a despesas médicas e baixa de produtividade no trabalho associadas ao tabagismo, conforme indicado pelo estudo Tabagismo no Brasil: Morte, Doença e Política de Preços e Esforços, baseado em dados de 2015 e lançado em 2017.

O Brasil se figura como referência nos programas antitabagistas. A política de aumento de impostos sobre o cigarro, em conjunto com as campanhas de conscientização e da restrição do uso de cigarro em determinados locais, resultou numa queda de 35% de fumantes no Brasil entre 2006 e 20162. Ainda assim, o tabagismo continua frequente e o cigarro figura como grande vilão da saúde, afetando praticamente todos os órgãos do corpo.
Dentre os prejuízos ocasionados pelo tabagismo, estão problemas cardiovasculares, doenças respiratórias, aumento de chance de acidente vascular encefálico e derrames e câncer. Fumar pode ainda ter efeitos sobre as células reprodutivas, podendo alterar a fertilidade, bem como problemas dentários, catarata, aumento de doenças inflamatórias e aumento de risco para diabetes tipo II. Em mulheres grávidas, o tabagismo é o principal fator associado com o baixo peso neonatal e está também ligado à prematuridade e a diversos desfechos negativos de saúde do bebê3,4.

Como mencionado no início deste texto, sim: fumar faz mal à saúde.
Dificilmente encontraremos algum fumante que não conheça os perigos do cigarro.
Mas então, por que as pessoas fumam? De maneira geral, é comum que as pessoas comecem a fumar durante a adolescência ou nos anos iniciais da fase adulta como forma de socialização (influência de amigos), como método de busca por satisfação e prazer, para se sentirem maduras e independentes, por influência de familiares ou de parceiros, como forma de lidar com o estresse, para se sentirem seguras e por curiosidade5.

O uso do cigarro frequentemente deixa de ser social e esporádico e passa a se tornar frequente devido ao alto poder aditivo da nicotina. A absorção da nicotina acontece rapidamente: leva em torno de 10 a 16 segundos para a nicotina chegar no cérebro após cada tragada, e o efeito da nicotina dura por volta de 15 a 20 minutos no corpo. Uma vez no cérebro, a nicotina se liga com receptores nicotínicos de acetilcolina (distribuídos em diversas regiões neuronais) e estes induzem a liberação de dopamina, gerando a sensação de prazer.

A nicotina é um psicoestimulante e aumenta o tempo de reação bem como o desempenho em tarefas que exigem sustentação da atenção. No entanto, a tolerância para esses efeitos aumenta rapidamente e a nicotina deixa de cumprir esta função. O organismo dos fumantes rapidamente se acostuma com o efeito da nicotina, e a ausência desta substância gera o efeito de abstinência. Embora muitos fumantes relatem a sensação de relaxamento, não há evidência de que a nicotina exerça esta função. A sensação de relaxamento provavelmente tem a ver com o fim do efeito de abstinência quando se fuma6. Para além do efeito da nicotina, o ato de fumar também se torna um hábito, e, conforme sua característica de automatismo, torna-se difícil quebrar esse hábito.

Atualmente, além das estratégias preventivas, os tratamentos para o tabagismo são baseados no uso de medicações e em técnicas comportamentais e cognitivas. O ministério da saúde aponta que a Terapia Cognitivo-Comportamental é a linha psicoterapêutica mais adequada para o tratamento do tabagismo.7 O tratamento costuma ser de curta duração e segue os passos de preparação do paciente, retirada gradual do cigarro e manutenção dos resultados.8

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Isabela Sallum
Psicóloga e Mestre em Medicina Molecular pela UFMG
Membra do Instituto Lumina Neurociências Aplicadas à Saúde Mental

Referências

  1. World Health Organization: Noncommunicable Diseases (NCD) Country Profiles, 2014
  2. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Vigitel Brasil 2016: Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde; 2017.
  3. S. Department of Health and Human Services.The Health Consequences of Smoking—50 Years of Progress: A Report of the Surgeon General. Atlanta: U.S. Department of Health and Human Services, Centers for Disease Control and Prevention, National Center for Chronic Disease Prevention and Health Promotion, Office on Smoking and Health, 2014 [accessed 2017 Apr 20].
  4. S. Department of Health and Human Services. How Tobacco Smoke Causes Disease: What It Means to You. Atlanta: U.S. Department of Health and Human Services, Centers for Disease Control and Prevention, National Center for Chronic Disease Prevention and Health Promotion, Office on Smoking and Health, 2010 [accessed 2017 Apr 20].
  5. Muttarak, R., Gallus, S., Franchi, M., Faggiano, F., Pacifici, R., Colombo, P., & La Vecchia, C. (2013). Why do smokers start?. European Journal of Cancer Prevention, 22(2), 181-186.
  6. Jarvis, M. J. (2004). ABC of smoking cessation: Why people smoke. BMJ: British Medical Journal, 328(7434), 277.
  7. Ministério da Saúde (2001). Abordagem e Tratamento do Fumante: Consenso.
  8. Sardinha, Aline; Oliva, Angela Donato; Falcone, Eliane M de O ; Ribeiro, Flaviany ; D’Augustin, Juliana . Intervenção Conitivo-Comportamental com grupos para o abandono do cigarro. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, Rio de Janeiro, v. 1, n.1, p. 83-89, 2005