Apesar de haver bastante variação individual, passamos cerca de 30% do dia dormindo.
Porém, se engana quem pensa que os efeitos de uma noite de sono não se reverberam para os outros 70% em que estamos acordados. Afinal, quando dormimos bem, tendemos a manter nossas funções cognitivas e mesmo nosso humor equilibrado ao longo do dia, enquanto que quando dormimos mal, sofremos as consequências disso através de uma redução da cognição, do humor e, consequentemente, da produtividade, fazendo com que o efeito (positivo e negativo) do sono seja um tópico fundamental para o aperfeiçoamento de todo neuropsicólogo.

Por exemplo, um paciente que teve uma única noite com sono de má qualidade pode apresentar um desempenho insatisfatório na avaliação neuropsicológica, sem que isso represente necessariamente seu real potencial cognitivo, mas apenas uma interferência negativa de uma única noite mal dormida (McClure et al, 2014). Ainda, condições mais crônicas, como insônia ou mesmo quadros de apneia obstrutiva do sono (SAOS), podem provocar alterações duradouras nas funções executivas dos indivíduos com ou sem alguma outra condição médica. Por exemplo, pacientes adultos e crianças com SAOS apresentam déficits acentuados em memória, atenção e funções executivas, que devem ser devidamente identificados e salientados para que o tratamento multidisciplinar possa ser conduzido da melhor maneira (Krysta et al, 2017).

Ainda, a avaliação neuropsicológica no caso de distúrbios do sono pode ser importante para averiguar se o tratamento recebido pelo paciente (médico ou psicoterapêutico) está surtindo um efeito observável em termos de cognição. Por exemplo, de acordo com uma investigação recente (Jurádo-Gámez et al, 2016) os pacientes com SAOS que receberam tratamento com CPAP durante 4 meses houve uma melhora significativa na memória episódica. Porém, vale ressaltar que esse efeito positivo do CPAP para a memória desses pacientes ainda é tema controverso na literatura especializada, havendo trabalhos que não evidenciaram melhora cognitiva em decorrência deste tratamento (Joyeux-Faure et al, 2016). Ou seja, esse é um caso em que a avaliação neuropsicológica pode atestar se houve ou não melhoras cognitivas em pacientes com transtornos do sono.

Isso significa que a neuropsicologia tem um papel fundamental tanto na identificação de déficits cognitivos nesses pacientes, quanto na avaliação do tratamento que eles recebem. Em virtude disso, a Pearson está lançando uma obra “Neuropsicologia do Sono: Aspectos Teóricos e Clínicos” que contará com instruções fundamentais para todo neuropsicólogo, afinal, qualquer pessoa está sujeita aos efeitos do sono, durante a avaliação, e essa questão tem que ser devidamente compreendida, para que os resultados da avaliação sejam interpretados adequadamente.

Adquira o livro “Neuropsicologia do Sono: Aspectos Teóricos e Clínicos” clicando aqui.

Thales Vianna Coutinho (Psicólogo – Ilumina Neurociências)

Referências:
Joyeux-Faure, M., Naegelé, B., Pépin, J. L., Tamisier, R., Lévy, P., Lamp; Launois, S. H. (2016). Continuous positive airway pressure treatment impact on memory processes in obstructive sleep apnea patients: a randomized sham-controlled trial. Sleep medicine, 24, 44-50.
Jurádo-Gámez, B., Guglielmi, O., Gude, F., & Buela-Casal, G. (2016). Effects of continuous positive airway pressure treatment on cognitive functions in patients with severe obstructive sleep apnoea. Neurología (English Edition), 31(5), 311-318.
Krysta, K., Bratek, A., Zawada, K., & Stepańczak, R. (2017). Cognitive deficits in adults with obstructive sleep apnea compared to children and adolescents. Journal of Neural Transmission, 124(1), 187-201.
McClure, D. J., Zuckerman, S. L., Kutscher, S. J., Gregory, A. J., & Solomon, G. S. (2014). Baseline neurocognitive testing in sports-related concussions: the importance of a prior night’s sleep. The American journal of sports medicine, 42(2), 472-478.