Saiba mais sobre como os processos avaliativos podem contribuir para a construção de carreira de pessoas com deficiência

A Orientação Profissional e de Carreira (OPC) é entendida como um processo de facilitação à escolha e construção de carreira, sendo que de acordo com as necessidades do cliente, o orientador poderá utilizar diversas estratégias, instrumentos e técnicas para explorar as variáveis envolvidas no processo de tomada de decisão. Dentre as possibilidades avaliativas, os orientadores podem fazer uso de instrumentos de avaliação psicológica, sendo que em primeiro lugar tal escolha deve ser pautada nas necessidades e demandas do processo e nos parâmetros éticos de atuação profissional. É importante que os testes e seus resultados não sejam utilizados com fins deterministas ou como “bola de cristal” na ideia errônea de “teste vocacional”.

O uso dos testes psicológicos em OPC deve ser entendido como um dos elementos  – e não o mais importante – que fazem parte de um processo maior: a avaliação psicológica. Assim, é fundamental que o orientador considere as demais fontes de informações que fazem parte do processo (entrevistas, observações, entre outros), bem como, que analise a aplicabilidade do instrumento em relação às características e especificidades da população a ser avaliada, ou seja, se existem normas ou estudos de evidências de validade para o grupo no qual se insere a pessoa.

No caso de pessoas com deficiência, é necessário que os instrumentos sejam acessíveis além de apresentar evidências de validade, cabendo ao avaliador verificar se é possível que o cliente manuseie os materiais dos instrumentos de forma autônoma, se o tamanho da letra nas folhas de respostas é adequado para leitura, se é pertinente a utilização de instrumentos com figuras e ilustrações ou se é possível utilizar instrumentos que demandam execução de tarefas com manipulação de objetos, entre outros. A acessibilidade também se aplica ao espaço físico em que a avaliação irá ocorrer, permitindo que os clientes tenham condições plenas de responder aos instrumentos corretamente e gerar uma pontuação válida. Em alguns casos, o avaliador pode fazer pequenas adaptações na aplicação dos instrumentos, como por exemplo, ler os itens para o cliente, tomando o cuidado para não enviesar a avaliação, restringindo-se ao fornecimento apenas das informações presentes nos manuais, sem forçar melhores ou piores respostas que possam interferir na interpretação dos resultados.

A American Psychological Association orienta que na interpretação dos resultados de processos avaliativos de pessoas com deficiência, os profissionais devem utilizar de perspectivas ecológicas, ou seja, articular tais resultados com as condições específicas e resultantes da deficiência e da sociedade para gerar interpretações mais válidas. De tal modo, além de ser um especialista da técnica, o orientador deve ser também um especialista da deficiência, entendendo seu impacto no desenvolvimento físico, psíquico e social. Nos processos de OPC, o orientador precisa conhecer as implicações da deficiência para a construção de carreira dos indivíduos a fim de conduzir de forma adequada a intervenção, bem como, fazer melhor uso dos resultados oriundos dos instrumentos de avaliação.

Apesar dos avanços sociais dos últimos anos, a inclusão ainda não é plena na sociedade, impedindo que as pessoas com deficiência exerçam seus direitos e deveres de forma igualitária e equitativa. Essas barreiras sociais e atitudinais também se encontram no campo do trabalho, fazendo com que a população encontre inúmeros desafios que se acentuam ao longo da vida útil e produtiva, tais como, ausência de acessibilidade, preconceito, negação da deficiência enquanto possibilidade de existência, tutela, não percepção de igualdade em relação aos trabalhadores sem deficiência ou alocação em trabalhos sem sentido ou insalubres.

Ao considerar os múltiplos fatores que podem dificultar a inserção social e laboral de pessoas com deficiência, o campo de OPC pode contribuir para efetivação da inclusão por meio do trabalho, auxiliando as pessoas a construírem trajetórias de carreiras contextualizadas e que rompam com estigmas sociais limitantes. Frente a isso, o uso dos instrumentos psicológicos no contexto da OPC não deve ser meio de promoção e reforço do individualismo, de ações discriminatórias ou opressoras, mas sim adequado ao desenvolvimento pleno, respeitando as premissas do Código de Ética Profissional da Psicologia e seu compromisso com os direitos humanos e o respeito à diversidade. Assim, o uso de instrumentos deve ser benéfico ao cliente em todas as situações e não deve ser usado de forma indiscriminada podendo trazer potenciais prejuízos ao cliente e ao serviço.

A OPC desde sua origem com Frank Parsons tem sido entendida como um dos mecanismos promotores de justiça social e mesmo com as inúmeras transformações ao longo dos anos deve estar atenta ao seu papel social. Os avanços teóricos, metodológicos e instrumentais da área precisam contribuir para o progresso da sociedade, de modo que as intervenções contemplem todas as pessoas que possam recorrer aos serviços e que utilizem os instrumentos de forma adequada, ética e justa. 

Para saber mais:

American Psychological Association et al. (2011). Guidelines for assessment of and intervention with persons with disabilities. The American Psychologist. DOI: 10.1037/a0025892

Barros, L. O. (2019). Avaliação psicológica de pessoas com deficiência: reflexões para práticas inclusivas. In: Conselho Federal de Psicologia. Prêmio Profissional Avaliação Psicológica direcionada a Pessoas com Deficiência. https://site.cfp.org.br/publicacao/premio-profissional-avaliacao-psicologica-direcionada-a-pessoas-com-deficiencia/

Cardoso, P., & Duarte, M., & Sousa, A. (2016). Desenvolvimento vocacional e aconselhamento de carreira: contributos para a justiça social. Revista Brasileira de Orientação Profissional,  http://www.redalyc.org/pdf/2030/203051246013.pdf  

Sobre o autor:

Leonardo de Oliveira Barros é Psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia com ênfase em Avaliação Psicológica pela Universidade São Francisco.
Perfil Profissional: https://www.facebook.com/leonardo.barros.9277