Como a falta de sono prejudica o processo de consolidação das funções cognitivas? Existe relação entre os estágios do sono e memória? Quais memórias são consolidadas durante o sono? E os distúrbios do sono causam alterações cognitivas? Pois bem essas são questões de estudo quando falamos da relação entre neuropsicologia e sono. É uma área que vem sendo extensivamente pesquisada e que tem contribuído muito para os avanços da neuropsicologia na clínica.

Compreender a relação e o papel do sono nas funções cognitivas podem melhorar e proporcionar um processo de avaliação neuropsicológica mais assertivo e fidedigno. No entanto a relação entre sono e cognição é uma área que vem constantemente se atualizando, apresentando ainda controversas sobre os reais efeitos da privação do sono nos domínios como atenção, memória, concentração e funções executivas.

Nesse artigo pretendo abordar algumas questões principais, como o impacto da privação do sono na cognição, não no intuito de encerrar ou concluir nenhuma pergunta, mas abranger ou até mesmo instigar questões sobre esse tema.

Então vamos lá. Se compreendermos o sono como um mecanismo que leva a restauração e manutenção do nosso equilíbrio energético e que tem uma função importante na promoção da qualidade de vida, podemos dizer que os aspectos cognitivos também são beneficiados por um sono de qualidade, não é mesmo?

Pois bem, você em algum momento, quando ficou sonolento ou quando não teve uma noite de sono adequada, já se sentiu mais lento para realizar alguma atividade? Já esqueceu de responder a algum compromisso, ou até mesmo ficou mais impulsivo ou desatento? Então, para compreendermos os benefícios do sono na cognição, basta avaliarmos as consequências de uma noite de sono mal dormida.

Estudos tem mostrado que a privação crônica de sono leva a prejuízos significativos nas funções cognitivas. Entende-se por privação do sono a supressão parcial ou total de sono (Antunes 200). Ou seja, se você apresentou algumas das situações citada acima, então você não está dormindo o tempo suficiente para se sentir bem durante o dia.

 Hoje vivemos em uma sociedade 24 horas, onde dormir é um comportamento que facilmente é substituído por uma atividade laboral, ou por qualquer outro compromisso.  Essa privação crônica de sono pode levar a consequências importante na saúde do indivíduo, tais como: disfunções hormonais e metabólicas, doenças como hipertensão e diabetes, obesidade, alterações de humor e também problemas cognitivos.

O impacto da privação do sono ou dos problemas de sono nas funções cognitivas ainda tem sido estudado, não havendo um consenso em relação ao quão forte é essa relação. Embora já se tenha uma compreensão de que sono insuficiente leva a uma desaceleração geral da velocidade de resposta e aumento da variabilidade do desempenho, especialmente para medidas simples de alerta, atenção e vigilância, há muito menos acordo sobre os efeitos da privação de sono em muitas capacidades cognitivas de nível superior, incluindo percepção, memória e funções executivas ( KilLgore 2010).

Exames de neuroimagem indicam o córtex pré-frontal como uma região que pode está particularmente suscetível aos efeitos da perda de sono, mas no entanto, tarefas de funções executivas que medem supostamente o funcionamento pré-frontal apresentou resultados inconsistentes no contexto da privação de sono. Porém, existe muitos raciocínios convergentes e baseados em regras, de que as tarefas de tomada de decisão e planejamento são relativamente afetadas por perda de sono, aspectos mais criativos, divergentes e inovadores da cognição parecem ser afetados pela privação do sono. ( Killgore 2010).

Vários estudos também têm apresentado o impacto da privação do sono no reconhecimento de emoções em face e tomadas de decisão (Hausser et.al 2015, Killgore 2017), bem como déficits na fluência verbal, pensamento criativo e planejamento não verbal (Deak e Stickgold, 2018). A privação crônica de sono pode levar a uma diminuição da atenção e das habilidade em discriminar sinais sutis; alterações no humor, motivação e interesse; capacidade de concentração, bem como aumento de erros e prejuízo de memória de curto prazo.

A relação entre alteração da memória e privação de sono existem alguns estudos mostrando que essas deficiências parecem ocorrer particularmente quando esses processos de aprendizado e memória exigem hipocampo, sugerindo que esta região cerebral pode estar particularmente sensível às consequências da perda de sono. Embora os mecanismos moleculares subjacentes ao sono e formação de memória ainda precisa ser investigada, evidências disponíveis sugere que a privação de sono pode prejudicar os neurônios do hipocampo, os processos de plasticidade e a memória (RAVEN et.al 2018).

Dessa forma o sono é composto por uma série de estados neurofisiológicos complexos que desempenham papéis importantes na aprendizagem, memória e processamento cognitivo.

No entanto, as pesquisas ainda precisam esclarecer: quais tipos de memória são consolidadas durante o sono? Quais componentes da consolidação da memória ocorrem durante o sono?  Como estes se relacionam com estágios particulares do sono.? (DEAK E STICKGOLD 2010).

Pois bem, como disse no início desse texto, não tenho a pretensão de encerrar esse assunto aqui, no entanto, é necessário considerarmos o sono como uma variável importante nos processos de avaliação neuropsicológica, bem como conhecer o seu real impacto sobre as funções cognitivas, para assim ser realizado intervenções e manejos adequados.

Texto escrito por: Ksdy Maiara Moura Sousa
Psicóloga do sono pela ABS – Neuropsicóloga – Mestre e doutoranda em
Ciências com ênfase em Medicina e Biologia do Sono pelo departamento de
Psicobiologia da UNIFESP.

Referências:

DEAK, Maryann C.; STICKGOLD, Robert. Sleep and cognition. Wiley Interdisciplinary Reviews: Cognitive Science, v. 1, n. 4, p. 491-500, 2010.

KILLGORE, William DS. Effects of sleep deprivation on cognition. In: Progress in brain research. Elsevier, 2010. p. 105-129.

KILLGORE, William DS et al. Sleep deprivation impairs recognition of specific emotions. Neurobiology of Sleep and Circadian Rhythms, v. 3, p. 10-16, 2017.

RAVEN, Frank et al. The role of sleep in regulating structural plasticity and synaptic strength: Implications for memory and cognitive function. Sleep Medicine Reviews, v. 39, p. 3-11, 2018.

HÄUSSER, Jan Alexander et al. Sleep deprivation and advice taking. Scientific reports, v. 6, n. 1, p. 1-8, 2016.