Crianças que demonstram aquisição e execução de habilidades motoras coordenadas abaixo do que seria esperado em uma idade especifica, consideradas as oportunidades de aprendizado necessárias; e, que os déficits motores, a lentidão e imprecisão dos movimentos interferem de forma persistente nas atividades quotidianas afetando o desempenho escolar, o lazer e a diversão  são possíveis casos de Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação – TDC. (DSM-5 / APA, 2014). O TDC é considerado um transtorno discreto do neurodesenvolvimento, no qual as dificuldades de coordenação em atividades motoras finas, necessárias no cuidado pessoal (escovar os dentes, amarrar o cadarço) interferem também nas tarefas escolares (escrever, acompanhar um ditado,  pintar, desenhar). O transtorno afeta também equilíbrio e a coordenação motora grossa, as quais são necessárias em jogos e brincadeiras (saltar, arremessar, pegar uma bola), limitando consequentemente a participação dessas crianças em atividades esportivas. Sinais precoces dessas dificuldades já podem ser observados nos primeiros anos de vida quando essas crianças apresentam atrasos na aquisição de marcos motores (sentar, engatinhar, caminhar).

               Crianças com TDC são intelectualmente capazes, e por definição não apresentam comprometimento neurológico, alterações genéticas e tampouco deficiências conhecidas que justifiquem as dificuldades motoras (DSM-5 / APA, 2014). Na maioria das vezes, as dificuldades motoras são comumente detectadas pelos pais e professores, ao observarem acentuada dificuldades em tarefas simples do cotidiano da criança, na comparação  com pares da mesma idade. A manifestação desse transtorno pode ser diferenciada entre crianças. Algumas crianças podem apresentar a combinação de várias dificuldades motoras como de equilíbrio, coordenação motora fina e grossa, consciência corporal e espaço-temporal, discernimento de direção e força; enquanto, outras crianças podem   demonstrar somente dificuldades especificas, como por exemplo na destreza manual. Frequentemente as dificuldades motoras persistem ao longo da infância, adolescência e podem permanecer na idade adulta.

               Na população de crianças em idade escolar,  aproximadamente 6% delas atende os critérios para a identificação do TDC (DSM-V – APA, 2014); embora alguns países reportem prevalências ainda mais elevadas (aproximadamente  11%). As evidencias indicam que possivelmente duas crianças em uma sala de aula podem ser afetadas pelo transtorno. No Brasil, conforme prevalência reportada em diversos estudos, a realidade brasileira, com prevalência mais elevada reportada em diversos estudos, esse número pode chagar até três crianças em uma sala de aula com 30 crianças. Para além das dificuldades motoras, inerentes ao transtorno, essas podem afetar negativamente o desenvolvimento do autoconceito, a qualidade das interações sociais e o desempenho escolar.

                As consequências generalizadas do transtorno e a  impossibilidade de cura, indicam a necessidade de identificação precoce dessas crianças para adequado encaminhamento e tratamento. Entretanto, a identificação do TDC geralmente ocorre somente na idade escolar, quando há maior exigência de proficiência motora, destacado pelas demandas do próprio contexto escolar (ex. acompanhar o ritmo de colegas sem dificuldade motoras finas) e de outros contextos no qual a criança passa a ser inserida (ex. pratica esportiva), cujos déficits motores na comparação com pares se torna mais evidente. A identificação de crianças com TDC, adotando os critérios do DSM-5 (APA, 2014), deve incluir a investigação do comprometimento funcional nas atividades da vida diária e no desempenho escolar, as condições médicas gerais e a avaliação da coordenação motora.

               Para a avaliação da coordenação motora, a Pearson lança no Brasil a Bateria de Avaliação de Movimento para Crianças – Segunda Edição (Movement Assessment Battery for Children – second editionMovement ABC-2) usada em vários países para investigação científica e na avaliação clínica. O Movement ABC-2 é reconhecido como padrão internacional de referencia para identificar déficits no desempenho motor em crianças e adolescentes entre 3 a 16 anos. A bateria de avaliação contem  três sub-testes que incluem tarefas de destreza manual, mirar e pegar e equilíbrio. O uso de diferentes sub-testes e tarefas  com o Movemento ABC-2  auxilia o professional a identificar quais os aspectos do comportamento motor estão alterados e determinar quais estratégias interventivas devem ser adotadas. Escores bruto e padronizados, percentis e classificação de desempenho são obtidos com a aplicação do Movement ABC-2. Desempenho abaixo ou no 5º percentil no Movement ABC-2 indica um padrão de graves dificuldades de coordenação motora e possivelmente  do TDC. Escores entre o 6º e o 15º percentil indicam risco para o TDC, enquanto que o desempenho no percentil 16 ou acima é considerado dentro de uma faixa de desenvolvimento normal. A validade deste instrumento tem sido reportada em diversos países, inclusive no Brasil.

               A identificação do TDC é essencial para a recomendação da criança aos serviços compensatórios necessários uma vez que sem intervenção, as dificuldades motoras de crianças com TDC persistem, e frequentemente repercutem em outros domínios de comportamento. Profissionais das áreas da saúde e educação podem auxiliarem essas crianças a se tornarem motoramente mais proficientes, a administrar as dificuldades do transtorno, ou ainda superar muitas das dificuldades por meio de treinamento motor. A identificação precoce do TDC (a partir dos 3 anos com a utilização do Movement ABC-2) e o uso da Lista de Checagem do Movement ABC-2 possibilitam aos profissionais detectarem as principais dificuldades cotidianas e a estabelecerem estratégias para minimizarem as dificuldades, potencializarem o desenvolvimento de novas habilidades e reduzirem os desfechos indesejados na capacidade escolar, emocional e comportamental da criança.

Saiba mais sobre o Movement ABC-2: https://materiais.pearsonclinical.com.br/movement-abc-2

Referências

American Psychiatric Association – APA. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. 5.ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Blank, R., Barnett, A. L., Cairney, J., Green, D., Kirby, A., Polatajko, H., Rosenblum, S., Smits-Engelsman, B., Sugden, D., Wilson, P., Vincon, S. (2019). International clinical practice recommendations on the definition, diagnosis, assessment, intervention, and psychosocial aspects of developmental coordination disorder. Developmental Medicine & Child Neurology, 61(3): 242-285.

Henderson S.E., Sugden, D. A., & Barnett, A.L. (2007). Movement Assessment Battery for Children – Second edition  – Movement ABC-2. London: Pearson.

Missiuna C., Rivard L., & Pollock N. (2004). They’re bright but can’t write: developmental coordination disorder in school aged children. Teach Exceptional Children Plus. Available: http://escholarship .bc.edu/education/tecplus/vol1/iss1/art3/

Sugden, D.A. (2006). Leeds Consensus Statement, Sugden: ESRC Seminar Series Developmental Coordination Disorder LEEDS 2004-2005.

Texto escrito por: Nadia Cristina Valentini

Pós-Doutorado Neuroscience & Cognitive Science Program – School of Public Health – University of Maryland

PhD. Human Exercise Science – Motor Behavior – Auburn University

Master. Human Exercise Science – Motor Behavior – Auburn University

Professora Universidade Federal do Rio Grande do Sul