Se você é clínico ou atua na área de educação, bem sabe o papel relevante dessas habilidades para o funcionamento diário de nossos pacientes e estudantes. Se está por dentro das produções científicas mais recentes, deve ter notado que as tais funções executivas estão entre as habilidades mais pesquisadas nos últimos anos. É fato que a ênfase sobre essas habilidades é reflexo de sua relevância para diversos desfechos e em diversos contextos.

            Mas, por quê?

Vejamos… a avaliação dessas habilidades, na maioria das vezes, não nos traz grande ajuda em um processo diagnóstico, pois suas alterações são inespecíficas, ou seja, uma infinidade de quadros clínicos pode cursar com alterações executivas, de modo que a identificação de déficits não é prerrogativa deste ou daquele quadro diagnóstico, em detrimento de outros. Mas, a identificação de déficits executivos pode colaborar ao delineamento de um perfil de funcionamento muito útil para traçar planos de tratamento (que melhorem a funcionalidade de nossos pacientes) e delinear prognóstico na clínica. Na infância, seja em contexto clínico ou escolar, é um preditor de diversos desfechos, o que motiva a avaliação e encaminhamento para intervenções precoces. Aqui, prevenir também é melhor do que remediar!

Ok, mas nada disso responde à primeira pergunta desse texto.  Você sabe o que são ‘funções executivas’? Tem certeza mesmo?

Alguns grandes nomes da neuropsicologia dizem que a linguagem é um ‘pântano’! Bem, me parece que as funções executivas podem ser o pântano do bosque ao lado!

Vamos definir “pântano”: um campo de pouca clareza conceitual, com uma diversidade de definições e de modelos teóricos e poucos consensos! Creio que esse entendimento de “pântano” é suficiente para continuarmos essa linha de raciocínio.

Pois bem, mas por que as funções executivas seriam, também, um pântano?

  1. Há uma multiplicidade de modelos teóricos. Quer um exemplo? Em uma revisão sistemática, Baggetta e Alexander (2016) tentaram esclarecer questões conceituais relacionadas à própria definição de funções executivas. A partir do montante de 106 estudos empíricos revisados, identificaram 48 diferentes modelos teóricos, além de outras 10 pesquisas que não se basearam em modelo algum!
  2. Há uma diversidade de instrumentos de avaliação. Isso, a priori, não é um problema, pelo contrário. Mas muitos instrumentos têm sido utilizados de modo indiscriminado (alguns viraram até brinquedo pedagógico!) sem qualquer clareza sobre se e em qual modelo se fundamentam. É o uso do instrumento pelo uso do instrumento… nada é mais técnico e menos científico e profissional.
  3. E há mais e mais termos relacionados e construtos sobrepostos, que se confundem com funções executivas (ou será que seriam, de fato, a mesma coisa?). Quer um exemplo: autorregulação (temos uma campeã!), inteligência, autocontrole, tomada de decisão… e mesmo aqueles mais na moda do momento, como competências socioemocionais… como esses construtos se relacionam às funções executivas?

É certo que não temos a pretensão de responder a todas essas questões (se tínhamos, isso se esvaiu ao longo de nosso trabalho neste livro). Mas, como pesquisadores particularmente interessados nas funções executivas, não nos eximimos de uma provocação acerca destes pontos. Um projeto que exigiu grandemente de nossas próprias funções executivas e que agora chega ao público pela Coleção Neuropsicologia na prática clínica, a obra ‘Funções executivas: modelos e aplicações’, traz algumas dessas ponderações.

Sumariamos, em uma única obra, os principais modelos, as sobreposições, confusões e convergências teóricas, a neurobiologia para muito além dos lobos frontais, o desenvolvimento do bebê ao idoso e questões teóricas e práticas sobre avaliação e intervenção, neste último desde a (re)habilitação até as intervenções precoce-preventivas, desta forma estendendo a discussão sobre intervenções da neuropsicologia clínica à neuropsicologia escolar.

Talvez um dos trabalhos mais desafiadores da minha carreira até então, escrito a quatro mãos com um parceiro admirável, o Grand Maester Leandro Malloy-Diniz (pense na minha empolgação ao escrever com um ídolo!). Acredito que posso falar pelo meu parceiro neste projeto ao afirmar que essa obra tem potencial de ser referência nacional na área! Um dos poucos livros, em âmbito nacional, totalmente dedicado às funções executivas e com olhar tanto para aspectos teóricos quanto práticos.

Esse livro é para clínicos. É para (neuro)psicólogos escolares. Para psicopedagogos. Para educadores. Para profissionais e estudantes de neuropsicologia, sejam quais forem suas formações de base. É para qualquer um interessado nas contribuições da neuropsicologia. Faço votos de que a leitura seja tão prazerosa quanto foi a escrita!

Conheça ‘Funções executivas: modelos e aplicações

Natália M. Dias

Professora do Depto de Psicologia

Universidade Federal de Santa Catarina

Referência

Baggetta, P., & Alexander, P. A. (2016). Conceptualization and Operationalization of Executive Function. Mind, Brain, and Education, 10(1), 10–33. https://doi.org/10.1111/mbe.12100